30 setembro 2007
Syd Barrett
Trata-se de um acto de magia; as canções de syd barrett: quem as ama? No entanto são algo de assustadoramente legítimo: uma regressão a um estado de menor controlo final, de deixar afirmar a imperfeição. Syd Barrett pertence a uma galáxia de estrelas imperfeitas, onde cabe também Daniel Johnston. Já Tom Waits é imperfeito por lapidação, sentir-se-ia incomodado por estar rodeado de reais weirdos. Syd faz canções porque alguém lhe disse que devia. E apeteceu-lhe. Depois já não lhe apetecia e calou-se. Fez aquelas porque saíram. Se fosse noutra altura teria feito outras, igualmente sem respeito pelas canções. Sente-se a falta do entorno, da produção dos Pink Floyd. Mas é tudo tão legítimo que apetece perguntar: com que direito ouvimos isto? Não deveria ser uma cassete privada, que nunca chegou a sair das mãos do seu criador?
Haikus musicais 1
The endless plain of fortune, John Cale, Paris 1919
A tarde europeia parada em Sevilha, no momento em que o fatalismo derrotou o cantor.
Apreciação leviana
Air, 10,000 Hz Legend – Pink Floyd do disco Obscured by Clouds; do mais macilento, portanto. Não têm coragem para fazer um Shine on you crazy diamond, porque está demasiado visto.
23 setembro 2007
Trunfos da maioridade
Saiu agora um DVD de David Gilmour, Live at the Royal Albert Hall. É habitual no final das recensões críticas vir a opinião definitiva, o arroubo conclusivo do crítico a aplaudir (timidamente) a obra, ou a relegá-la para as notas de pé de página da história; neste caso, a conclusão vai logo no início: compre antes que esgote.
Roger Waters tem promovido uma discussão estéril sobre quem é Mr. Pink Floyd. Não vale a pena desgastarmo-nos com as linhas escritas sobre o tema. A verdade é que tanto Waters como Gilmour eram um terço do som PF (desculpa lá, Waters!) e o outro terço cabia legitimamente a Mason e Wright, por muito pouco que Waters gostasse de Wright, ao ponto de expulsá-lo da banda por alturas de "Final Cut".
Neste DVD prova-se mais uma vez à saciedade o que já sabíamos: Gilmour persegue a oitava maravilha do acorde fantasma de Wish you Were Here, busca aterrar em Marte depois de ter estado no lado escuro da lua.
A guitarra está lá. As notas agudas em sustain são inegáveis. Este é o som PF, mesmo que se toquem composições de... Gilmour. É curioso, o que é PF legítimo, como a introdução de Dark Side of the Moon, soa a repetição, sem novidades. Tanto Gilmour como Waters têm reclamado este filão como o seu ouro em espectáculos e discos, com mais adrenalina no caso de Waters, mas em abono da verdade ambos têm sido fiéis e aptos guardiões. Mas, sem dúvida, as novas composiçoes de Gilmour em "On an island" são o som planante perdido entre Dark Side e Wish You Were Here e The Division Bell. É só o terceiro album em 30 anos, sinal de que o homem não tem pressa.
E rodeia-se de bons amigos. David Crosby, Graham Nash, Robert Wyatt, David Bowie, Phil Manzanera. Veja-se o ar embevecido de Crosby perante a guitarra budista de Gilmour. West Coast meets The Island... Nos anos 60 tudo era muito mais estanque. É certo que aos 60 anos as etiquetas se tornam irrelevantes e só o prazer conta... o prazer da cumplicidade: e não é que as harmonias vocais de Nash e Crosby secundam na perfeição a voz arrastada de David?
Robert Wyatt é uma figura mítica, um autêntico avatar (antes deste termo passar a ter significado "disfarce" no second life), do rock progressivo. Vê-lo na cadeira de rodas para que o atirou a queda de uma janela em 70 (71?), depois da turbulência dos comandos rítmicos dos Soft Machine (versão free jazz dos Pink Floyd de 67), em perfeita comunhão com Gilmour, é comovente. Este homem não é fácil, militou lado a lado com todas as esquerdas da música, criou o seu próprio muito particular canto na história. Tem sido saudado como uma das vozes verdadeiramente originais que o rock tem para oferecer. Vê-lo, nas suas longas barbas não comprometidas, a fumar um cigarro enquanto espera pelo seu solo, a olhar para a guitarra ritmo, é como olhar para as fundações da terra.
Mr Gilmour toca com a serenidade de não ter que mostrar nada a ninguém. "On an Island" é um album corajoso, no sentido de que marca uma declaração de intenções: fiel a si próprio até ao fim. Este DVD mostra um músico em pleno domínio da sua voz e do seu processo de composição.
Roger Waters tem promovido uma discussão estéril sobre quem é Mr. Pink Floyd. Não vale a pena desgastarmo-nos com as linhas escritas sobre o tema. A verdade é que tanto Waters como Gilmour eram um terço do som PF (desculpa lá, Waters!) e o outro terço cabia legitimamente a Mason e Wright, por muito pouco que Waters gostasse de Wright, ao ponto de expulsá-lo da banda por alturas de "Final Cut".
Neste DVD prova-se mais uma vez à saciedade o que já sabíamos: Gilmour persegue a oitava maravilha do acorde fantasma de Wish you Were Here, busca aterrar em Marte depois de ter estado no lado escuro da lua.
A guitarra está lá. As notas agudas em sustain são inegáveis. Este é o som PF, mesmo que se toquem composições de... Gilmour. É curioso, o que é PF legítimo, como a introdução de Dark Side of the Moon, soa a repetição, sem novidades. Tanto Gilmour como Waters têm reclamado este filão como o seu ouro em espectáculos e discos, com mais adrenalina no caso de Waters, mas em abono da verdade ambos têm sido fiéis e aptos guardiões. Mas, sem dúvida, as novas composiçoes de Gilmour em "On an island" são o som planante perdido entre Dark Side e Wish You Were Here e The Division Bell. É só o terceiro album em 30 anos, sinal de que o homem não tem pressa.
E rodeia-se de bons amigos. David Crosby, Graham Nash, Robert Wyatt, David Bowie, Phil Manzanera. Veja-se o ar embevecido de Crosby perante a guitarra budista de Gilmour. West Coast meets The Island... Nos anos 60 tudo era muito mais estanque. É certo que aos 60 anos as etiquetas se tornam irrelevantes e só o prazer conta... o prazer da cumplicidade: e não é que as harmonias vocais de Nash e Crosby secundam na perfeição a voz arrastada de David?
Robert Wyatt é uma figura mítica, um autêntico avatar (antes deste termo passar a ter significado "disfarce" no second life), do rock progressivo. Vê-lo na cadeira de rodas para que o atirou a queda de uma janela em 70 (71?), depois da turbulência dos comandos rítmicos dos Soft Machine (versão free jazz dos Pink Floyd de 67), em perfeita comunhão com Gilmour, é comovente. Este homem não é fácil, militou lado a lado com todas as esquerdas da música, criou o seu próprio muito particular canto na história. Tem sido saudado como uma das vozes verdadeiramente originais que o rock tem para oferecer. Vê-lo, nas suas longas barbas não comprometidas, a fumar um cigarro enquanto espera pelo seu solo, a olhar para a guitarra ritmo, é como olhar para as fundações da terra.
Mr Gilmour toca com a serenidade de não ter que mostrar nada a ninguém. "On an Island" é um album corajoso, no sentido de que marca uma declaração de intenções: fiel a si próprio até ao fim. Este DVD mostra um músico em pleno domínio da sua voz e do seu processo de composição.
22 setembro 2007
NHOP é bom!
Niels-Henning Orsted Pedersen, mais conhecido por NHOP, foi um contrabaixista dos melhores que serviram o jazz, e a longa lista de colaborações com nomes sonantes (uma das mais conhecidas e produtivas com Oscar Peterson), deram-lhe uma projecção mundial.
Este dinamarquês morreu prematuramente aos 58 anos, em 2005 e deixou mais pobre o jazz europeu.
Felizmente que a música sobrevive, e dele encontrei recentemente:
e já tinha:
Veja-se o sorriso tranquilo e satisfeito de NHOP nas capas, os tons pastel e azul claro, e adivinha-se logo a serenidade da música. Mas sem que tal signifique um adormecimento new age: o seu contrabaixo é inteligente, saltitante e rodeia-se de bons amigos. Há uma paz nórdica, sem dúvida, mas que é frequentemente quebrada por um swing que tem mais a ver com oscar peterson e mais além; quão ilusória será essa paz dados os problemas de NHOP com o álcool, que talvez tenham estado relacionados com o seu desaparecimento precoce?
Conselhos de utilização: colocar a rodela no laser e servir-se um malte com duas pedras. Colocar o som alto e o viking chegará.
e já tinha:
Veja-se o sorriso tranquilo e satisfeito de NHOP nas capas, os tons pastel e azul claro, e adivinha-se logo a serenidade da música. Mas sem que tal signifique um adormecimento new age: o seu contrabaixo é inteligente, saltitante e rodeia-se de bons amigos. Há uma paz nórdica, sem dúvida, mas que é frequentemente quebrada por um swing que tem mais a ver com oscar peterson e mais além; quão ilusória será essa paz dados os problemas de NHOP com o álcool, que talvez tenham estado relacionados com o seu desaparecimento precoce?
Conselhos de utilização: colocar a rodela no laser e servir-se um malte com duas pedras. Colocar o som alto e o viking chegará.
04 setembro 2007
Quem diria, seu Jorge em Montreux!
Seu Jorge é um personagem. Entre a favela do Gogó da Ema onde nasceu e cresceu e a sua participação em The Life Aquatic com Bill Murray vai um mundo e um mar de distância. Seu Jorge é larger than life, porque tem muita life. Quem o viu em Cidade de Deus conhece-o como actor; magnífico, como o filme. Quem o viu em The Life Aquatic sabe que é um dos corolários da bizarria do filme; interpretando as versões tropicais de temas de David Bowie é um Thin White Duke muito preto. Quem conhece os seus dois discos, mais um ao vivo com Ana Carolina, admira sobretudo a espontaneidade do seu ritmo, a invenção invejável da sua lírica popular e directa. Pois seu jorge foi para Montreux; em Montreux tocam os monstros consagrados, e os monstros, e os consagrados que não são monstros. Que ele tenha tocado lá em 2005 é sinal da perspicácia dos organizadores; que tenha aceite é bem-vindo e ficou registado uma intervenção borbulhante e emocionante (na eagle records). Há mais informação por aí; curiosamente, o site oficial (será?) em http://www2.uol.com.br/seujorge/ apenas regista o seu primeiro disco (Samba esporte fino).
De lá vos deixo a saudação inicial: "Aí rapazeada! Andei na Europa e Nova Iorque fazendo turnê do Samba Esporte Fino! e gravei meu novo CD CRU que estará disponível em breve!!! E mais, vamos melhorar o Brasil, caralho, a hora é essa."
Aí está. O artista apresentado.
Petra Haden
Quem sai aos seus... não é de Genebra! (obrigado Rui Saraiva pela ex-citação). Petra é uma de tri-gémeas, sendo que as outras também deram os seus próprios passos na música e o mano Josh é sobejamente conhecido pelos seus Spain (onde Petra também colabora). Petra estudou violino, abandonou-o e voltou a ele aos 20 anos. A sua característica mais distintiva é a amplitude vocal, que lhe permite imitar diversos instrumentos. Colaborou como violinista, com vozes, e em outras artes diversas, em discos tão diversos como os dos Foo Fighters, Green Day, Bette Midler ou Victoria Williams. Também tem publicado em nome próprio, depois de uma experiência mais juvenil com os that dog.
Caiu-me nas mãos o disco dela com Bill Frisell, chamado "Petra Haden and Bill Frisell" (tão original!), em que o Bill a acompanha à guitarra acústica e eléctrica (Rykodisc 2004). O menu consta de versões, cantadas na sua voz singela. Parece ser o típico disco da-jovem-talentosa-com-o-amigo-do-pai-que-aparece-lá-em-casa-e-é-um-artista-consagrado, mas funciona bem no seu registo intimista. Versões de Coldplay, Tom Waits, Elliot Smith, Foo Fighters, "Moon River", Gershwin, Stevie Wonder e um original dela e outro de Frisell completam um ramalhete heterogéneo na origem mas que Petra compõe bem. Não é caso para dizer que Petra é uma das 7 maravilhas do mundo moderno, mas... quem quer saber de maravilhas?
Mais informações em: http://petrahadenmusic.com/
23 agosto 2007
Ninguém sabe nada de prog sem conhecer fruupp
http://www-dcrp.ced.berkeley.edu/Cervero/cork.htm
um comentário acerca do melhor registo pirata conhecido de fruupp pela pessoa que o gravou.
A música de Fruupp não é deste tempo. Não sabemos de que tempo é; nenhum corresponde a este passado eventual que não se reconhece em nenhum presente.
24 julho 2007
Prog list na Amazon
Como qualquer mortal, gosto de fazer listas de coisas. Neste caso, dos meus progs favoritos. São 25 na primeira lista, mas poderiam facilmente ser 50.
http://www.amazon.co.uk/gp/richpub/listmania/fullview/RFEV558R1F3PN/ref=cm_lm_pthnk_view/202-3791015-4191055?ie=UTF8&lm%5Fbb=
Vou fazer uma segunda lista!
06 junho 2007
03 junho 2007
Sandrose, França, 1973
Prog francês muito estimável, com uma boa guitarra e mellotron em doses satisfatórias. As letras são em inglês, cantadas por uma Rose, e dizem que têm parecenças com os holandeses Earth and Fire. É bem possível. Deem-lhes uma orelha.
Entrada na Gibraltar Encyclopedia:
http://www.gepr.net/safram.html
01 dezembro 2006
20 outubro 2006
14 outubro 2006
Jody Grind
É isto que têm de bom os anos setenta. Apesar desde praticamente essa altura ouvir e investigar nomes e bandas da época, de vez em quando surge mais uma de que nunca tinha ouvido falar, não são nada conhecidos, mas são muito bons. Os Jody Grind são um belo exemplo. Há outra banda recente com o mesmo nome. Neste caso são os originais, que lançaram apenas dois discos, em 1969 (One Step on) e 1970 (Far Canal). O primeiro é mais improvisado.
O som é uma mistura de Blood, Sweat & Tears, Chicago (soul e blues, portanto), com o chamado "progressive edge", que faz toda a diferença. O resultado é vivo, muito ritmado, bem "esgalhado".
Informação sobre a banda (de http://www.alexgitlin.com/npp/jgrind.htm)
Albums:
One Step On (Transatlantic TRA 210) 1969
Far Canal (Transatlantic TRA 221) 1970
Both now reissued on CD by Akarma, AK058 and AK065 resp.
Ao contrário do que é habitual, a entrada sobre eles na Gibraltar Encyclopedia of Progressive Rock não é muito eloquente nem elucidativa. http://www.gepr.net/jfram.html
01 outubro 2006
As piores capas de sempre I
Classificar alguma coisa de melhor ou pior é muito subjectivo; sempre aparecerá alguém com algo que acha muito melhor ou muito pior. Daí que o mérito da classificação seja, antes de mais, lançar a discussão. Uma coisa é certa, estas que hoje aqui ponho são muito más. Algumas delas andam por aí a circular na net. Se tiverem outras igualmente horrendas enviem para o meu mail; EL_K@ONINET.PT que eu cá as ponho. Palavra de escuteiro. Ah, outra coisa. Estas são capas de vinil: da altura em que ainda olhávamos para as capas dos discos, lembram-se?






24 agosto 2006
Paixão de agora mesmo
23 junho 2006
propósito
Fascina-me saber que há coisas que não sei, e um grande sentido oculto que me escapa em tudo o que acontece; fascina-me que esse sentido seja tão vasto que se escapa sucessivamente, logo após me parecer que, agora sim, o entendi.
Viver pelo mistério é apenas uma forma de viver: não tão angustiada como acreditar nas certezas matemáticas da realidade, nem tão feliz como a visão apaixonada do universo. Quero com isso dizer que não há formas melhores ou piores: cada uma tem desafios e alegrias; e mesmo que as formas se sucedem muitas vezes: a uma fase de procura de uma chave para o mundo pode suceder de imediato o desinteresse pela explicação, acompanhado pela admiração pelo enigma. E até que em diferentes papeis que desempenhamos uma ou outra forma se acentua. Seguramente que não são conciliáveis, o que só faz aumentar a minha convicção que a realidade é um quarto escuro em que tacteamos com diferentes sentidos: ora um leve perfume, ora um entrever de sombras, ora um objecto que se cola ao corpo.
21 maio 2006
Forever Returns, Blue Note NY
NY, 16 de Abril de 2006. Blue Note. Ultima noite do Forever Returns, grupo criado por Chick Corea para mais uma recriação dos Return to Forever. Com algum humor à mistura, porque a verdade é que os Forever não param de "returnar". Desta feita, a equipagem compunha-se de Airto Moreira na bateria e percussão, um dos fundadores dos RTF, e de Eddie Gomez no baixo, ele próprio um histórico do jazz, muito por culpa do seu percurso com Bill Evans.
No palco, três respeitáveis senhores, sobretudo Gomez, sereno no seu charme latino. Chick mais ladino, e Airto com ar de zangado O concerto foi breve, menos de 1 hora (fazem dois shows por noite, não se podem alargar muito), mas sempre de altíssimo nível.
Chick dando o palco aos seus companheiros, pouco pirotécnico, pouco latino. Eddie eclético e circunspecto. Airto concisamente exuberante.
Só no final dois temas dos RTF apareceram, e no encore, surpresa, the-one-and-only Flora Purim.
Apertada numa licra, dadas as suas actuais épicas proporções, poderá facilmente registar-se sob o novo nome de Flora Pudim. Infelizmente, Flora não parecia estar preparada para cantar e, além da voz se sumir por vezes inconvenientemente, saiu do ritmo e foi por aí fora até algum ano dos longínquos 70. Dispensável, quando tudo tinha corrido tão bem.
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