É uma vergonha que as barreiras políticas e algumas outras de puras palas radiofónicas nos afastem do ouro sonoro Português. E tanto haveria que dizer sobre isso, tanto haveria que descartar como pirite dos tolos. Este não.
24 março 2015
22 março 2015
2015 - What's new, pussycat?*
* Segundo o guião de Woody Allen para o filme do mesmo nome de 1965, com Ursula Andress e Peter O'Toole...
Aqui ficam umas pistas sobre o que de relevante se tem publicado este ano.
Aqui ficam umas pistas sobre o que de relevante se tem publicado este ano.
Africa Express – Tery Riley’s in C Mali –
A peça classica do compositor minimalista Terry Riley é revisitada por um grupo de percussionistas do Mali, resultando numa leitura espantosa...
Björk – Vulnicura
(Ver artigo aqui no Peru)
Benjamin Clementine - At Least For Now
Eberhard Weber - "Encore"
O baixo fluido de Eberhard Weber, numa série de encores de concertos de há uns anos atrás, em complemento ao anterior "Resumé" e agora que um severo ataque cardíaco o deixou incapaz de tocar.
Father John Misty -" I Love you, Honey Bear"
Jack De Johnette – "Made in Chicago"
Sufjan Stevens – "Carrie and Lowell"
O regresso ao intimismo pré "Age of Adz"; um álbum que tem como inspiração a Mãe e o Padrasto.
(sai a 30 de Março)
(sai a 30 de Março)
TheWaterboys - "Modern Blues"
Ouve-se bem, tem bons temas.
Zun Zun Egui - "Shackles Gift"
Um cruzamento endiabrado de rock, jazz, e africa...
13 março 2015
O Vulcão Islandês e a sua cura - Björk e o novo álbum, "Vulnicura"
“Who is open-chested
And who has coagulated?”
“Vulnicura” começou por ser notícia pela fuga imprevista do álbum para os sítios do costume na net em Janeiro deste ano, antecipando assim o seu lançamento em quase dois meses. A editora de imediato disponibilizou o disco no Itunes. Naturalmente, quando está em causa um disco novo de uma das desbravadoras do desconhecido musical, a curiosidade é grande. Mais ainda quando a sua última experiência, “Biophilia”, explorando a ligação com o Natureza e o Universo em formato multi-conteudo, não foi particularmente conseguida.
É sempre uma boa forma de começar o ano, musica nova desta Islandesa universal e curiosa.
As primeiras audições revelaram um disco pessoal, contido e magoado. Sabe-se que o disco se segue a um rompimento amoroso, o que dá o contexto. Os temas voltam a entrar mais no onirismo poético de Björk e sustentam-se em malhas delicadas, tecidas de percussões esparsas. Voltam também as cordas, que tão boa companhia fizeram nos seus primeiros trabalhos. Não com o efeito bombástico que tiveram em temas como “Bachelorette”, mas mais como uma rede emocional que envolve as canções e lhes dão uma expressão mais… romântica, no sentido estilístico do termo.
Confirma-se o estado de fragilidade emocional, por exemplo em temas como Dark Lake (“Our love was my womb / But our bond has broken /My shield is gone /My protection is taken), que nos seus dez minutos se desenvolve em estado de suspensão entre cordas e percussões eletrónicas profundas. A voz da cantora baixa para o extremo mais grave, como acontece também no inicial “Stone Milket” ou em “History of Touches”, título que só por si é um manifesto de emoções. O tom é directo e confessional: “Family was always our sacred mutual mission /Which you abandoned”
Vários temas estendem-se além do formato curto da canção pop – que, não sendo o texto de muitas composições de Björk, não deixa de ser o molde de grande parte delas.
A participação de Anthony em Atom Dance é um dos momentos mais conseguidos, com Anthony a fornecer um contra-ponto à devastação emocional: “When you feel the flow as primal love/
Enter the pain and dance with me / We are each other's hemispheres”
Enter the pain and dance with me / We are each other's hemispheres”
Na inquietação rítmica e no intimismo este disco faz-nos voltar a “Vespertine”. Curiosamente, dois discos começados por V e com uma só palavra por título. No entanto, este último, além de não gozar do aconchego psicológico das cordas (descontando uma harpa), é mais coral e tranquilo. Nas águas agitadas por estremeções rítmicas leves de “Vespertine” não se sente o fundo escuro de “Vulnicura”, antes a serenidade de um momento de reflexão e uma contemplação entusiasmada da existência – que tem o seu momento mágico em “Pagan Poetry”, um dos seus melhores temas. No disco deste ano, é a força telúrica, não a da Terra que movia montanhas num dos seus vídeos mais conhecidos, mas a que faz tremer os humanos.
Dou por mim a pensar que “Vespertine” tem muito a ver com Aerial , de Kate Bush, ambos como trabalhos de maturidade serena e domínio da sua arte. Em ambos perpassa um sentido de resolução, de vida resolvida – que é o que falta em “Vulnicura”. Bom, é verdade que em “Aerial” há um tema quasi-metafísico sobre uma máquina de lavar roupa (“Mrs. Bartolozzi”), e isso não existe em “Vulnicura”…
Aquilo que não falta é o habitual cuidado com a imagem, com a criação de uma estética própria para cada um dos seus discos. Neste caso, a fotografia de Björk com um fato negro e “plumas”azuis e amarelas em volta da cabeça. De notar a ferida no peito, quase uma chaga da imagética católica, é uma fenda aberta por onde sai a dor, mas entra o mundo; e que no caso vertente assume um conteúdo quase sexual. Como sempre, um trabalho de Björk é um todo de sentido e forma.
Que a separação dos amantes é um momento poderoso de criação intensa é vulgaridade amplamente atestada. Björk deu-nos o seu momento de dor com toda a expressão artística e intensidade. Esperemos que à catarse se siga a paz, e que em breve possamos ouvir Björk mais forte, renovada e tão intranquilamente sedutora como costuma ser.
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