O fundamentalismo dos
falsos eruditos
"The trouble with a classicist - he looks at a tree
That's all he sees, he paints a tree
The trouble with a classicist - he looks at the sky
He doesn't ask why, he just paints the sky"
John Cale / Lou Reed - "Songs for Drella"
Existe um fenómeno
curioso e anacrónico no mundo da música: algumas das pessoas que mais veneram
compositores como Bach, Mozart ou Beethoven parecem ser também as que mais se
indignam quando as suas obras são reinterpretadas por bandas de rock. Ou
incluidas como referencias em composições de rock. Como se a música clássica fosse um artefacto
sagrado, intocável, condenado a viver eternamente sob uma redoma de vidro (a
sua redoma de vidro).
Esta atitude não é defesa
da arte. É conservadorismo cultural disfarçado de erudição.
O problema não são os
amantes da música clássica. Nem as obras originais, que são legitimamente
muitas delas monumentos muicais da nossa cultura - embora muitas sejam só uma
profunda chatice, feita para agradar a principes e cardeais sem a menor noção musical
- no ambito daquilo que hoje em dia se
chama, com desprezo. “mecenato” - ou
seja, vender o talento a quem tem dinheiro para o comprar- Coisa que os
trogloditas eruditos rejeitam visceralmente hoje, mas aceitam sem problemas nos
seus ídolos já mortos.
O problema são os seus
autoproclamados sacerdotes (muitos deles gente que rejeita qualquer ideia de
religião mas age como cultores de um deus musical). Um pequeno grupo de guardiões culturais que se
comporta como se tivesse recebido autoridade divina para decidir quem pode
tocar Beethoven, como o pode tocar e em que instrumentos o pode tocar. Não
defendem a música; defendem o seu estatuto social (de minoria minuscula e socialmente irrelevante).
O que os incomoda não é a adaptação de uma fuga de Bach por uma banda de rock.
O que os incomoda é ver uma obra que consideram património exclusivo da sua
tribo cultural tornar-se acessível a milhões de pessoas fora dela.
Os defensores mais
radicais da pureza clássica falam frequentemente de "respeito pela obra
original". O argumento parece nobre, mas desmorona-se ao primeiro contacto
com a história. Bach reutilizava as suas próprias composições. Mozart adaptava
obras de outros autores. Liszt transformava óperas inteiras em peças para
piano. Ravel orquestrava música alheia. Os chamados compositores nacionalistas
do século XIX e início do século XX tomavam como base das suas obras musicas
populares - estamos a falar de Smetana, Dvorak Bartók, Kodály, Manuel de Falla ou
Villa-Lobos, não propriamente das favas com chouriço do infame José Cid.
A
adaptação sempre foi parte integrante da tradição clássica. O que incomoda
alguns puristas não é a adaptação em si; é o facto de ela vir do rock, do metal
ou de outros géneros que, no fundo, consideram inferiores. Há nesta postura uma
forma subtil de elitismo. A mensagem implícita é clara: uma orquestra pode
reinterpretar qualquer coisa, mas uma banda de rock não tem legitimidade para
tocar Beethoven. Um maestro pode desconstruir Mozart em nome da inovação
artística, mas um guitarrista elétrico que faça o mesmo está a cometer um
sacrilégio. E têm que citar, muito claramente, em quem se estão a inspirar,
para se poderem legitimar.
Esta visão revela uma
profunda insegurança. Se uma obra-prima perde valor porque foi tocada por uma
banda de rock, então talvez não fosse assim tão robusta. Se ela é tocada e
ninguém sabe o que é, então talvez o problema seja que a obra de base se tenha
tornado irrelevente e se tornou “cultura popular” e passou a integrar o grande
repertório do “anónimo”, esse grande compositor que vive das obras cuja autoria
a maioria das pessoas esqueceu (exceto os tais grandes e iluminados
especialistas). A grande arte sobrevive
à mudança de instrumentos, de estilos e de épocas. Beethoven continua a ser
Beethoven, quer seja interpretado por uma orquestra sinfónica, por um quarteto
de jazz ou por uma banda de hard rock.
O mais irónico é que
muitos destes guardiões autoproclamados da tradição esquecem-se de que os
grandes compositores do passado eram frequentemente revolucionários. Rompiam
convenções, chocavam contemporâneos e procuravam novas formas de expressão. É
difícil imaginar Beethoven a simpatizar com quem tenta congelar a música no
século XIX e patrulhar as fronteiras da criatividade.
As adaptações rock de
música clássica nem sempre são boas. Algumas são banais, excessivas ou
simplesmente mal executadas. Mas devem ser julgadas pela sua qualidade
artística, não pelo preconceito contra o género musical de origem. Criticar uma
interpretação porque é fraca é legítimo. Criticá-la porque usa guitarras
elétricas ou porque “soa a Bach” é apenas snobismo.
A música clássica não
precisa de ser protegida do rock. Precisa de ser protegida da irrelevância e da
falta de conhecimento das novas gerações. E uma das formas mais eficazes de
manter uma obra viva é permitir que novas gerações a descubram através de novas
linguagens. Quando uma banda adapta Bach, não está a destruir Bach. Está a
demonstrar que, séculos depois, aquela música continua suficientemente poderosa
para inspirar músicos de universos completamente diferentes.
Talvez o verdadeiro
problema seja que algumas pessoas confundem amor pela música com posse da
música. E a arte, felizmente, nunca pertenceu aos seus guardiões. Pertence a
quem a cria, a quem a interpreta e a quem a escuta.
E, dito isto, vou ouvir “A Whiter Shade of Pale”, dos Procol Harum.

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