21 junho 2026

The trouble with Classicists

O fundamentalismo dos falsos eruditos



"The trouble with a classicist - he looks at a tree
That's all he sees, he paints a tree
The trouble with a classicist - he looks at the sky
He doesn't ask why, he just paints the sky"

John Cale / Lou Reed - "Songs for Drella"

 

Existe um fenómeno curioso e anacrónico no mundo da música: algumas das pessoas que mais veneram compositores como Bach, Mozart ou Beethoven parecem ser também as que mais se indignam quando as suas obras são reinterpretadas por bandas de rock. Ou incluidas como referencias em composições de rock.  Como se a música clássica fosse um artefacto sagrado, intocável, condenado a viver eternamente sob uma redoma de vidro (a sua redoma de vidro).

Esta atitude não é defesa da arte. É conservadorismo cultural disfarçado de erudição.

O problema não são os amantes da música clássica. Nem as obras originais, que são legitimamente muitas delas monumentos muicais da nossa cultura - embora muitas sejam só uma profunda chatice, feita para agradar a principes e cardeais sem a menor noção musical  - no ambito daquilo que hoje em dia se chama, com desprezo. “mecenato” -  ou seja, vender o talento a quem tem dinheiro para o comprar- Coisa que os trogloditas eruditos rejeitam visceralmente hoje, mas aceitam sem problemas nos seus ídolos já mortos.

O problema são os seus autoproclamados sacerdotes (muitos deles gente que rejeita qualquer ideia de religião mas age como cultores de um deus musical).  Um pequeno grupo de guardiões culturais que se comporta como se tivesse recebido autoridade divina para decidir quem pode tocar Beethoven, como o pode tocar e em que instrumentos o pode tocar. Não defendem a música; defendem o seu estatuto social (de  minoria minuscula e socialmente irrelevante). O que os incomoda não é a adaptação de uma fuga de Bach por uma banda de rock. O que os incomoda é ver uma obra que consideram património exclusivo da sua tribo cultural tornar-se acessível a milhões de pessoas fora dela.

Os defensores mais radicais da pureza clássica falam frequentemente de "respeito pela obra original". O argumento parece nobre, mas desmorona-se ao primeiro contacto com a história. Bach reutilizava as suas próprias composições. Mozart adaptava obras de outros autores. Liszt transformava óperas inteiras em peças para piano. Ravel orquestrava música alheia. Os chamados compositores nacionalistas do século XIX e início do século XX tomavam como base das suas obras musicas populares - estamos a falar de Smetana, Dvorak Bartók, Kodály, Manuel de Falla ou Villa-Lobos, não propriamente das favas com chouriço do infame José Cid.

  A adaptação sempre foi parte integrante da tradição clássica. O que incomoda alguns puristas não é a adaptação em si; é o facto de ela vir do rock, do metal ou de outros géneros que, no fundo, consideram inferiores. Há nesta postura uma forma subtil de elitismo. A mensagem implícita é clara: uma orquestra pode reinterpretar qualquer coisa, mas uma banda de rock não tem legitimidade para tocar Beethoven. Um maestro pode desconstruir Mozart em nome da inovação artística, mas um guitarrista elétrico que faça o mesmo está a cometer um sacrilégio. E têm que citar, muito claramente, em quem se estão a inspirar, para se poderem legitimar.

Esta visão revela uma profunda insegurança. Se uma obra-prima perde valor porque foi tocada por uma banda de rock, então talvez não fosse assim tão robusta. Se ela é tocada e ninguém sabe o que é, então talvez o problema seja que a obra de base se tenha tornado irrelevente e se tornou “cultura popular” e passou a integrar o grande repertório do “anónimo”, esse grande compositor que vive das obras cuja autoria a maioria das pessoas esqueceu (exceto os tais grandes e iluminados especialistas).  A grande arte sobrevive à mudança de instrumentos, de estilos e de épocas. Beethoven continua a ser Beethoven, quer seja interpretado por uma orquestra sinfónica, por um quarteto de jazz ou por uma banda de hard rock.

O mais irónico é que muitos destes guardiões autoproclamados da tradição esquecem-se de que os grandes compositores do passado eram frequentemente revolucionários. Rompiam convenções, chocavam contemporâneos e procuravam novas formas de expressão. É difícil imaginar Beethoven a simpatizar com quem tenta congelar a música no século XIX e patrulhar as fronteiras da criatividade.

As adaptações rock de música clássica nem sempre são boas. Algumas são banais, excessivas ou simplesmente mal executadas. Mas devem ser julgadas pela sua qualidade artística, não pelo preconceito contra o género musical de origem. Criticar uma interpretação porque é fraca é legítimo. Criticá-la porque usa guitarras elétricas ou porque “soa a Bach” é apenas snobismo.

A música clássica não precisa de ser protegida do rock. Precisa de ser protegida da irrelevância e da falta de conhecimento das novas gerações. E uma das formas mais eficazes de manter uma obra viva é permitir que novas gerações a descubram através de novas linguagens. Quando uma banda adapta Bach, não está a destruir Bach. Está a demonstrar que, séculos depois, aquela música continua suficientemente poderosa para inspirar músicos de universos completamente diferentes.

Talvez o verdadeiro problema seja que algumas pessoas confundem amor pela música com posse da música. E a arte, felizmente, nunca pertenceu aos seus guardiões. Pertence a quem a cria, a quem a interpreta e a quem a escuta.

E, dito isto, vou ouvir “A Whiter Shade of Pale”, dos Procol Harum.

 


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