26 maio 2009
As que ouvem
Algumas vêm e vão, e dormem sobre o ombro alheio quando o ombro pede, ou elas pedem. Outras ficam, e apodrecem e definham na sombra de si mesmas. Secas e silenciosas, companheiras de si mesmas, despem de si todos os interesses para serem apenas interessantes. Lavam do olhar a profundidade e deixam crescer as pestanas, para terem um olhar profundo.
Outras ficam, como a réstea de um segredo. Outras lembram por si só um tempo. Uma foto num livro define uma dobra na vida; a lembrança de um braço sobre o lençol sobrepõe-se à Virgem Maria, chegue a hora de olhar uma última vez.
Brel definiu les femmes et les chiens e acabava: c'est por ça que j'aime les chiens.
Ou, elles regardent la mort comme tu regardes un puit. Não lhes tinha respeito e no entanto amava-as.
Há pouco a dizer sobre este tema que lançou sobre mim a sua curiosidade minutos atrás: a música mexe-se com toda a complexidade da noite, a textura de um deserto, o a imaginação de um cego. Conheci algumas mulheres que gostam de música, uma delas ao ponto de fazer Direito e o conservatório de guitarra ao mesmo tempo (o pai tinha uma parede de Deutsche Gramophon e cantoras líricas solitárias chamando por ela e por mim). Conheci mulheres em que a música cresceu como uma planta de interior e criou curiosos botões de rosa, frágeis. Davam flor aí duas vezes por ano, sempre que ouviam o Adagietto da 5ª de Mahler ou Jarrett a respirar sobre o piano.
Mas elas foram sempre sobretudo e acima de tudo a voz de canções interiores, suas ou outras, as janelas de arquitecturas que mãos engenheiras de homens ergueram. Mesmo a Madre Superiora da interpretação, June Tabor, ou a a de outro convento, Billie Holiday, ou a da congregação ao lado, Ella Fitzgerald, foram sempre a voz de canções alheias. Magníficas, arrebatadoras, mas tradutoras de uma força alheia. Há umas poucas que se foram "da lei da morte libertando": Joni Michell, Kate Bush, Siouxie Siou. Mary Coughlan. Laurie Anderson. Penso que Polly Jean Harvey, mas prestei pouca atenção. Há muitas singer-songwriters, algumas com muito sucesso. Como Diana Krall, que finalmente arranjou um marido compositor, logo um dos mais elogiados dos últimos 30 anos. Há R'n'B ladies que até nos esquecemos que cantam. Há majorettes e há ladies of the road. Não há vida nem morte, porque não há criação. Veja-se quantas são as criadoras de jazz. Ou mulheres que tenham criado música erudita - pós-romântica, dodecafónica, concreta,minimalista, o que for - no século 20.
Há uma margem imensa que deveria criar um novo rio, pela sensibilidade que a sua mão tem quando molda: tenho esperança de ouvir um dia um Burt Bacharach feminino. Ou um Énia Morricone que não seja uma Dulce Pontes. Um Robert Fripp de mamas? Certo. À falta de melhor, alguns homens vão apurando a sua sensibilidade feminina: Bowie, Antony... You are my sister...
Sister, desliga o ipod e liga o amplificador. Solta o teu acorde.
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