18 julho 2009

Novidades da frente leste

Ora vejamos: A Leste nada de novo? Uma visita rápida à Empik (FNAC polaca), hoje à tarde revela que: a) O Cd está a extinguir-se também aqui. A quantidade de cds nas prateleiras é substancialmente inferior e o fundo do catálogo é cada vez mais residual. As novidades imperam e provavelmente quando esgotam não há reposição. Mesmo na música polaca só se encontra o que é mais recente ou reedições. Discos editados há dois anos já não se encontram. b) Destacava-se um CD ao vivo dos Quidam, em edição limitada a 1.000 exemplares, mas que foi já editado em 2006 (provavelmente é um reprint), de seu nome "Live in Concert - The Fifth Season". É já da fase depois da saída de Emila Derkowska, vocalista extraordinaire, de excelente voz, se bem que ainda um pouco em bruto. O vocalista que tomou o seu lugar, de forma inteligente, opta por um regime de low profile, para evitar comparações penalizadoras. Uma versão intimista do tour-de-force Sanktuarium e um potpourri de velhos temas (como soía dizer-se nos idos de antigamente), pareceram interessantes. Estes novos Quidam são menos líricos e mais neo-prog que os anteriores. Eu tenho embirração com o neo-prog, que só tolero em doses moderadas. Logo por azar, é o sub-género prog que a Polónia mais produz (Collage, Riverside, Lizard, Satellite...). A ouver vamos.
c) Os veteranos Laboratorium, versão polaca de algum jazzrock norte-americano de 70 (Herbie Hancock, Weather Report), continuam activos e actuaram a semana passada num festival de jazz de Varsóvia. O seu CD clássico é "Modern Pentathlon", mas há muitos outros.
d) A propósito de jazz, Varsóvia continua bem e recomenda-se. O contingente polaco, que conheço mal, tem grande tradição e excelentes músicos. O site http://www.polishjazz.com/ dá uma ideia do que falo. Recordo com boas memórias um cd de Andrzej Jagódinski a jazzar sobre a musica de Chopin (que, como sabem, também era polaco e aqui viveu antes de emigrar para França. Mas há muitos nomes. Recordo também Wodek Pawlik, por exemplo. Os nomes mais conhecidos serão, eventualmente, Krzystof Komeda e Tomasz Stanko. Ah, e havia um violinista eléctrico que pedia meças a Jean-Luc Ponty e que também fez carreira nos States... Como é que se chamava?? (madito Alzheimer...).
E, sobretudo, o jazz é não só uma tradição como um presente muito vivo. No verão, todos os anos o Warsaw Summer Jazz Days traz grandes nomes. Vi um concerto memorável de Abbey Lincoln e outro electrizante de Lucky Peterson em 2001. Este ano, só para dar um exemplo, aqui fica o programa:
JULY 1st 2009, 19:00, CONGRESS HALL- WORLD SAXOPHONE QUARTET- ART ENSEMBLE OF CHICAGO- WADADA LEO SMITH’S GOLDEN QUARTET
JULY 2nd 2009, 20:00, CONGRESS HALLSING THE TRUTH – DIANNE REEVES, LIZZ WRIGHT, ANGELIQUE KIDJO, SIMONE
JULY 3rd 2009, 19:00, CONGRESS HALL- BRAXTON, GRAVES, LASWELL, ZORN- THE DREAMERS- ELECTRIC MASADA
JULY 4th, 20:00, KLUB POWIĘKSZENIEMULASTA TRIOJULY 5th, 14:00, KRÓLIKARNIAPASIMITOME, MYSELF & I
JULY 6th, 20:00, KLUB POWIĘKSZENIEMACIEJ OBARA TRIOJULY 7th, 20:00, KLUB POWIĘKSZENIEDZIEŃ SŁOWACKI: Lucia Lužinská & All Time Jazz with special guest Fritz Pauer / Tomáš Gajlík Trio
JULY 8th, 19:00, CONGRESS HALL - TYMAŃSKI BRASS ENSEMBLE & special guest DAVE DOUGLAS- MARIA SCHNEIDER Z ORKIESTRĄ KRZYSZTOFA HERDZINA- "JAZZ SUITE TYKOCIN" WŁODEK PAWLIK & RANDY BRECKER and PODLASKA ORKIESTRA SYMFONICZNA OPERY I FILHARMONII W BIAŁYMSTOKU
A quantidade de nomes célebres é notável, a junção com músicos polacos também e por último os ensmbles que trazem ao festival igualmente.
Ao mesmo tempo, pasme-se, a praça mais central da parte antiga de Varsóvia, a Rynek Starego Miasto, tem todos os anos desde no início de Junho (creio) e até ao final de Agosto concertos ao ar livre, com artistas menos conhecidos internacionalmente, mas não de segunda escolha. Por exemplo, ouvi aqui há uns anos a AnnaMaria Jopek (figura de proa do soft jazz vocal polaco, que fez um disco nada desprezível com Pat Metheny- o manganão tem olhinho para escolhê-las, veja-se o exemplo na mesma linha da Norah Jones).
E poder-se-ia pensar que ficamos por aqui. Mas não. Um festival que ainda não percebi bem como se chama mas tem uma boa probabilidade de ser Wytwórnia, promete para Lódz, que fica a 120 kms de Varsóvia, um programa com o grupo nórdico Jazz Kamikaze, segue com Daniel Lanois e termina com Al di Meola...
A dificuldade, de facto, está na escolha e na elasticidade do bolso.
e) E agora para algo completamente diferente: Osjan. Cruzamento de ritmos europeus, americanos, africanos, celtas, é um grupo com o "seu" som. Pode-se ir buscando rótulos, mas eles quebram-nos no tema seguinte. É um grupo que nasceu há 28 anos. Tomasz Stanko, um dos nomes grandes do jazz polaco e que faz uma carreira internacional, esteve no grupo nos anos 70. Caiu-me nas mãos o CD "Po Prostu", o que no meio limitado polaco quer dizer qualquer coisa como "sempre em frente". É um trabalho delicado, cinzelado, com matizes muito definidas. Lembrou-me, a espaços, os Hadouk Trio, mas com menos pompa e mais experimentais. Uma surpresa muito boa, a precisar de companhia que eu não lhe irei negar.
f) E, por último, os dinossauros excelentíssimos... os SBB! Este power trio activo há mais de 30 anos é uma reserva inesgotável de boa música e criatividade. Digo-vos, se algum crédito vos mereço, que este é dos bons. Uma aposta segura. Guitarra, baixo e bateria em permanente desafio.
Os SBB chegaram a ter projecção internacional, quando o mundo era mais democrático. Custa a perceber como é que um país que vivia sob um regime totalitário desenvolveu tantas bandas que praticavam uma música subversiva, nada a ver com os camaradas e os amanhãs que cantam. Curiosamente, a antiga Checoeslováquia também têm alguns exemplos destes, por exemplo Radim Hladik com os Modry Efekt e os Olympic.
Os SBB são um legítimo motivo de orgulho para os polacos (bom, pelo menos para os que os conhecem). Têm imensos CDS e não param de os republicar, desenterrando raridadades como este que comprei hoje (um concerto em Köln em 1979), a par da edição de novos álbuns que em nada desmerecem a herança e de edições em nome próprio dos elementos da banda, como Józef Skrzek e Apostolis Anthimos. Long live!

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