10 novembro 2009

Causas perdidas: rehabilitar Vangelis

Ok, antes que passem à frente ou ignorem este blogue definitivamente: o homem fez a banda sonora de Blade Runner. Para os adolescentes que não leem este blogue, um filme mítico de Ridley Scott sobre uma obra de Philip K Dick ("Do Androids Dream of Electric Sheep?", cito de memória) (o qual, já falecido, gerou outras obras cinematográficas maiores como aquela em que o Tom Cruise se vê envolvido numa trama a propósito de videntes que preveem crimes ainda não sucedidos - Minority Report) Esqueçam os "Chariots of Fire" e outras 1.300 cacas que ele fez. Lembrem-se de uma obra Maior, "L'Opera Sauvage", ou "Albedo 0.39" (de um germanismo nada mau para um grego, hein?). A propósito deste, quantos programas noticiosos fizeram o seu genérico à custa dele? Ou "Odes", com Irene Papas, a Diva Grega, Amália local. Ou "Invisible Connections", a obra que gravou para a Deutsche Gramophon. Ou "Heaven and Hell". E, por uma vez, perdoem-lhe ter-se juntado com Demis Roussos nos Aphrodite's Child e ouçam "666", ou essa espantosa "Earth". Esqueçam que ele deu um tapete de veludo ao Jon Anderson (ele que se recusou a entrar nos Yes para seguir o seu caminho - numa altura em que os Yes eram uma espécie de biggest show on earth) - e já agora façam uma excepção, mesmo assim, para duas ou três coisas, como a enigmática "Italian Song". Ouçam, outrossim, a China de pacotilha mas ainda assim profunda de "China". A propósito, uma das mais belas capas do vinil. Ouçam também "Mask", ou "L'Apocalypse des Animaux". A sensibilidade deste grego que não lê nem escreve musica é fora de série.

2 comentários:

  1. Sou, de há longa data, um grande admirador da obra de Philip K Dick. Confesso que durante alguns anos, eu e um grupo de amigos – os que também liam os clássicos, os românticos, os surrealistas da escrita automática e tudo o que de bom se pode encontrar na literatura – parecia sermos os únicos apreciadores deste grande escritor (dentro do nosso círculo de ilustres conhecidos, é claro)! As críticas mais severas ao nosso muito amado FKD provinham, quase sempre, dos que só liam Ficção Científica… curiosamente, o mesmo se passava com o Ray Bradbury, onde grande escritor menos apreciado pelos fãs de uma Space Opera cada vez mais esgotada na vulgaridade dos chavões…

    Marcaram-me profundamente o Ubik, O Mistério de Valis, a Invasão Divina, o Homem Duplo, Os Três Estigmas de Palmer Eldritch, O Deus da Fúria, o Depois da Bomba, A Penúltima Verdade, e muitos outros romances e contos! Acabei por ler muitos destes livros uma segunda vez, na língua original… verdadeiramente excepcional, este Philip K Dick!

    A adaptação dos seus livros e contos ao cinema acabou por dar a conhecer a sua obra ao grande público, o que é sempre positivo (infelizmente, suspeito de que o FKD verdadeiro, o dos livros, nunca será para toda a gente…). Há bons e maus exemplos de adaptação ao cinema. Como exemplo do péssimo que se faz, temos o Total Recall (trata-se de deturpação barata de um conto muito interessante que li em português, há muitos anos, cujo título havia sido traduzido para “Recordações por Atacado”, se bem me lembro); como exemplo do genial, proclamo o Blade Runner, é claro! O Blade Runner (o filme) é pura e simplesmente genial! Um dos raros exemplos em que o filme é superior ao conto! Neste caso é mesmo! Creio que o próprio FKD terá observado que o Ridley Scott conseguiu entrar na sua cabeça… o que é evidente para quem conhece os ambientes de sórdida coexistência da alta tecnologia com a degradação humana e com o mal, tão genialmente explorados pela sua escrita!

    Quanto à banda sonora, nada contra. Trata-se de mais uma boa criação do Vangelis, apesar de preferir a banda sonora do “Chariots of Fire” (há quem lhe chame de caca… :-) na verdade, são gostos…). Não morro de amores pela sua música, enquanto música pura, mas identifico na mesma componentes que despertam emoções arrebatadoras e encantadoras, quando associadas à imagem ou à carga dramática de uma bela história…

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  2. Fui grande fã do FDK, principalmente do Mistério de Valis, Os três estigmas de Palmer Eldritch e do Ubik. Era mesmo o meu autor de FC favorito. Concordo que o Blade Runner é superior enquanto obra cinematográfica à obra literária. O Minority Report também não estava mal. O BR teve o mérito de reunir um bom argumento, uma realização soberba e uma banda sonora à altura. Não há sons naturais na banda sonora, todos foram criados artificialmente.

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