Alto lá! Afinal não é só ano que acabou! Uma década revolveu-se ano após ano até chegar à seguinte. E, portanto, balanço!
Falava Vítor Belanciano no "Público" de 30 de Dezembro dos "loucos anos zero" e de como esta década não deixa um estilo. Ou melhor, não deixa um só ou um imediatamente identificável, como o punk ou a new wave. Tem razão, creio; porém, esta década, tão contraditória, foi marcada para mim por duas características: individualismo / atomização e desmaterialização. Por individualismo quero dizer precisamente deixou de haver necessidade de seguir um estilo. Sem haver rasgos geniais de inovação, experimentou-se muito. A música (popular) libertou-se do peso da tradição e ganhou ligeireza estilística. Já se podia misturar reggae e metal, electronica e classica, tango e rock sem inibições. A atomização tem a ver com a dimensão relativamente pequena da maior parte destes fenómenos que, curiosamente, foi ajudada pela internet. Ao abrir o mundo abrirem-se milhões de pequenas células que muitas vezes se extinguiram sem reprodução à vista.
Por "desmaterialização" quero dizer que o facto de a música ter deixado de ter (obrigatoriamente) um suporte físico fez com que se tornasse universal (acessível a todos), virtualmente omnipresente e descartável. Um efeito secundário foi a valorização do tema face ao álbum. Terá "OK! Computer" sido o último álbum verdadeiramente conceptual e não apenas a nascente de muita música futura? Nesta década fizeram-se excelentes canções no rock. Atrevo-me a dizer, depois de já conhecer razoávelmente 5 décadas de música, que se produziram algumas das melhores canções de sempre. Vá lá, num dia pachorrento dedicar-me-ei a enumerá-las, na minha modesta opinião, é claro.
Não é um estilo comparável com os anteriores. É uma identificação da década e do que ela diverge das anteriores. Esta foi uma década de sucessos mini-atómicos à escala global. Como quase tudo, a música passou à velocidade da internet, só nas retrospectivas nos conseguimos lembrar de factos & figuras que já foram. A Uncut (já vos disse que é a minha revista preferida?), fez no seu site o inventário dos 150 melhores da década. Não é nenhuma bíblia, mas certamente que há aqui muito do que mais marcante se fez. Deixo o link:
http://www.uncut.co.uk/music/special_features/
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