04 janeiro 2010

Revolution 9 em 09-09-09

Se me pedissem para eleger um evento musical importante que tivesse ocorrido durante o ano de 2009, não hesitaria em escolher a remasterização dos álbuns dos Beatles: os álbuns britânicos, a edição americana de “Magical Mystery Tour” e a colecção de singles “Past Masters”. Todas estas maravilhas da música contemporânea se encontram disponíveis individualmente ou numa caixa (versões stereo), para além de um outro pack – uma edição limitada (e creio que esgotada) para deleite de coleccionadores e melómanos – que reúne todos os álbuns nas suas misturas monofónicas originais, com excepção dos três últimos por terem sido originalmente gravados em stereo. Na verdade beneficiámos, durante todo o ano de 2009, de excelentes produções musicais, de que destaco algumas comemorativas dos aniversários de Purcell, Haendel, Haydn e Mendelssohn (para além de produções associadas a excelentes criações contemporâneas); beneficiámos igualmente de boas novidades no campo do Jazz moderno (David Binney, Keith Jarret, Chris Potter, etc.) e assistimos à multiplicação dos “indie” com a denominada música independente a produzir verdadeira arte e a marcar posição nos prémios mais importantes da indústria musical norte-americana! Talvez este importante sinal – o de que uma nova classe de músicos de “audiência globalizada” começa a ganhar terreno às vedetas fabricadas pela indústria tradicional – fosse a escolha acertada num contexto de eleição de um evento musical importante em 2009! Ainda assim, prefiro a simples e menos filosófica remasterização dos álbuns dos Beatles! Qual o motivo desta minha escolha, num contexto tão interessante e efervescente em matéria de música? Basicamente são dois, os motivos desta eleição: o primeiro é porque a música dos Beatles é especial. Não é estranho que quarenta anos depois da sua extinção em massa, ainda haja tantas crianças, em todos os continentes, a adorar os Beatles e as suas canções? A verdade é que à semelhança do que acontece com algumas melodias de Mozart, Beethoven, Brahms e de tantos outros, que estão condenadas a uma eterna e ingénua popularidade alheada da sua história e origem, também as belas canções dos Beatles alegram os dias de muitas crianças e adultos de todas as origens e credos, ainda que pouco ou nada saibam sobre o contexto cultural que as produziu, sobre o significado e origens do rock psicadélico e muito menos sobre a utilização, no Rock, de acordes dissonantes em 1963, prática até aí restringida ao mundo do Jazz! Mas a música dos Beatles não se limita a alegrar os corações das crianças e de gente simples. Recordo-me perfeitamente do entusiasmo com que o grande Leonard Bernstein falava dos Beatles nos seus concertos para jovens – chocando alguns pais na América e certamente alguns musicólogos e intelectuais portugueses da época – e recordo também o facto do álbum “Revolver”, de 1966, ter sido considerado pelo canal VH1, no ano 2000 (o ano dos recordes de vendas da colectânea “1”), como o melhor álbum de música pop de todos os tempos (muito outros álbuns dos Beatles receberam, ao longo dos tempos, idênticas insígnias)! O segundo motivo desta minha eleição deriva certamente de alguma carga emocional: passei todos estes anos sem comprar discos dos Beatles (descobri há pouco tempo que não sou o único), com excepção da colectânea “1” e do Abbey Road (mais tolerante à distorção digital que habita nas nossas colecções de discos prateados), que continuo a ouvir no carro! Pura e simplesmente não conseguia nem consigo ouvi-los (refiro-me às produções digitais anteriores, é claro). Desforrei-me. Mandei vir as versões monofónicas (tive de adquirir o “Yellow Submarine”, o “Abbey Road” e o “Let It Be” separadamente, porque estes foram originalmente gravados em stereo). Porquê o pack mono? Porque são as versões originais dos álbuns… as que foram concebidas pelos próprios Beatles. As versões estereofónicas destas gravações monofónicas originais ficaram, na época, a cargo dos “early-adopters” da nova tecnologia e não se pode dizer que tenham feito um bom trabalho. É claro que o verdadeiro desastre ocorre na década de 80, com as primeiras remasterizações digitais dessas versões stereo, já de si pouco recomendáveis! Que posso concluir? Em primeiro lugar que todas as remasterizações estereofónicas actuais (as originais dos últimos três álbuns e as restantes) estão bem melhor do que as fraudes produzidas na década de 80, apesar de se sentir, ainda que em menor escala, uma certa fadiga ao fim de algum tempo de audição (compressão… o problema de todos os CD). E quanto às actuais remasterizações mono? A resposta é simples: um verdadeiro paraíso para os nossos ouvidos! Acabaram-se os truques de mau gosto tão típicos da época (pirosice confinada à produção de música pop), com instrumentos deslocados do espaço acústico real a berrarem à saída dos altifalantes. Mas a grande diferença está na quase total ausência de compressão destas edições monofónicas! As diversas camadas de som já não parecem estar amalgamadas num mesmo patamar dinâmico, o que solta os instrumentos e os faz sobressair no espaço e no brilho do seu verdadeiro timbre, especialmente vozes e pianos, que integram o grupo dos mais sacrificados nestes processos de “empacotamento” digital – talvez se obtivessem melhores resultados, se alguns dos engenheiros de som actuais se dedicassem mais a ouvir música e menos a brincar com o software… Finalmente, também já foi lançada uma edição limitada de ficheiros digitais armazenados em dispositivos USB, contendo todos os álbuns dos Beatles (certamente num formato lossless), e as tão desejadas versões em vinil também devem estar a chegar – o formato que ainda proporciona a melhor qualidade sonora possível… apenas os (quase) nados-mortos digitais da alta definição (DVD-A e SACD) podem competir por esse lugar. Não é estranho que nada se diga sobre a remasterização dos Beatles em SACD? Também é estranho que a nova PS3 tenha abandonado o formato… Vale bem o pena adquirir estes “mono”! Boas audições e os votos de um bom 2010!

9 comentários:

  1. Anónimo14:15

    Que é isto? O mundo explica-se assim, com esta facilidade? A dizer dislates aqui e ali, um "diz-se" um "parece que" e toca a desbundar um chorrilho de parvoíces?
    Bravo! Há muito que não via tamanha pretensão e prosápia nem sobre mercadoria chinesa nem sobre banha da cobra!

    Coisa típica de lambe-botas do capitalismo e da tecnologia japonesa de enganar papalvos provincianos armados em intelectuais...

    Porque é que sobre música e tecnologia se podem
    dizer todos os disparates que se quiser sem ser preso? Pode explicar-me, ó senhor? Isso sim, seria um bom tema para uma crónica destas, a armar ao pingarelho!

    Já agora gostava de saber que instrumento toca? Que músicos conhece pessoalmente? O que é que já compôs ou interpretou? E podia também informar-nos como tem passado Deus e os anjos? É que a julgar pela autoridade que mostra deve comer à mesma mesa dele!

    É irritante as pessoas pensarem que podem opinar sobre música sem perceberem um chavelho do assunto. E ainda mais irritante é darem-se ares de que percebem da coisa quando nitidamente não percebem a ponta de um corno!

    Meu senhor: escreva sobre a sua maezinha, sobre colheres de pau, sobre o tempo mas, por favor, se quiser escrever sobre música, sente-se e espere que lhe passe a vontade. Ou então tente abster-se da sua opinião - que não presta para nada, nem acrescenta ou retira qualquer valor à música - e informe-se sobre o que vai escrever.

    Ah... e não se informe junto de outros da sua laia! Fale com os músicos...

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  2. Caro Anónimo, para quem critica as opiniões alheias com tanta facilidade e é tão culto, é pena que não tenha a honestidade intelectual de assinar o seu nome. É típico dos covardes insultar a coberto do anonimato.

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  3. Ana Andrade14:57

    Caro covarde, pena tenho de não ter ficado a saber nada do quanto sabe de música, dos instrumentos que toca, dos músicos que conhece pessoalmente e das suas composições.Imagino que tal se tenha ficado a dever à tecnologia japonesa e ao capitalismo.Como tem passado a sua mãezinha?

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  4. Jorge Queen15:07

    Coitado do "Anónimo"! Está a levar um "Baile"!

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  5. Anónimo15:13

    Então a Aninhas quer saber da mãezinha do anónimo? E ainda quer saber mais coisas? Está muito interessada... onde vamos parar?

    Quem anda à chuva, molha-se...

    Coitadinho do Queen. Não foi ao baile...

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  6. Anónimo15:15

    Hmmmm! Não vale a pena tanta empertigação, que são habituais na net as incursões destas intoxicações alimentares ambulantes. O peru está inchado, mas temo que seja tão-só de gás profano e nauseabundo.

    Quanto ao texto do Hélio, devo confessar que considero a análise feita um tanto-ou-quanto almofadinho-burguesa. De tanto e tão extenso prólogo dissecatório, é provável que a paciente tenha dado à sola.

    Noutras palavras: Music has left the building.

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  7. Parece que o meu texto de inspiração pirosa e burguesa, associado às fogosas e estéreis observações do cavalheiro anónimo, acabaram por desencadear justas e merecidas reacções… é assim na net e também é assim fora da net! Morra o mutismo, morra! PIM!

    De resto, a única coisa que verdadeiramente importa é que a comunicação se mantenha. E neste sentido, apraz-me poder contribuir com a minha humilde prestação para este agradável e criativo espaço que o Luís nos criou!

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. Eu fiquei em pulgas para ouvir essas remasterizações!

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