O Krautrock começa a ganhar de novo presença no espaço musical actual, reconhecendo-se-lhe finalmente algumas das qualidades que o tornaram tão distinto de outras formas que viram a luz no final dos anos 60 e 70. Sendo o termo krautrock redutor, e, de certa forma, depreciativo, pois serviu para a imprensa inglesa rotular unitariamente a produção alemã ligada a formas progressivas de rock, ainda hoje ele é o chapéu que serve para designar um conjunto alargado de propostas e projectos musicais que não só duraram até bem depois da morte oficial da 1ª geração de rock progessivo (fuzilada a frio pelo punk), como influenciaram muitos dos projectos actuais (e os LCD Soundsystem são apenas um em milhões).
A este fenómeno não será estranho o esgotamento do filão anglo-saxónico, que, apesar de prodigiosamente vasto, já foi escavado em todas as suas vertentes, revelando à luz actual gemas antigas conhecidas e outras menos conhecidas (algumas ainda bem..). Para quem tem alguma memória da música, não deixa de ser estonteante o número de bandas e álbuns que passaram ao lado mesmo dos mais "musicalmente esclarecidos" e que merecem pelo menos uma audição atenta. O facto é que a revolução musical originada em Inglaterra a partir de "Revolver" e "Sgt. Peppers" se alargou a países tão distantes como o Turquemenistão ou o Bahrain e criou movimentos paralelos, alguns intensamente criativos, além dos Estados Unidos, em Itália, em França, em Espanha, na Polónia, na República Checa, nos Países Nórdicos e... na Alemanha. Se as outras cenas merecem também destaque (e não me admiraria que a próxima fosse a francesa), a Alemanha tem características especiais que a tornam merecedora da atenção que lhe começa de novo a ser prestada hoje em dia.
Em primeiro lugar, o que se iniciou na Alemnha, não acabou, foi copiado, replicado, transformado e hoje em dia está presente em muita da música que se ouve, ao contrário das formas mais tradicionais de progrock.
Em segundo, a música alemã a que nos referimos parte de um contexto diferente da inglesa. Enquanto em Inglaterra os jovens procuram abanar o establishment com uma contracultura colorida e anti-qualquer coisa, na Alemanha este movimento surge como uma nova identidade em construção, contra o vazio do pós-guerra e está fortemente politizado, pelo menos de início. Se há muito ácido e cogumelos nas tripes espaciais, como no caso dos Guru Guru, há também muito Mao e Trotsky e anarquistas de plantão. Alguns dos grupos mais emblemáticos do krautrock, como os Amon Düul, começam como comunidades (Kommune). As comunidades viviam na cidade, mas também em quintas, ou mesmo em fábricas (o começo dos Kraftwerk, embora não fossem uma comunidade, esteve ligado aos estúdios Kling Klang, instaladosnuma fábrica). A música era uma das formas da construção de uma sociedade nova (coisa que os Magma, em França, levaram ao ponto de criar uma nova língua).
Ora, é desse esquecimento que se faz o ressurgimento actual. Alguns livros, algumas colectâneas, algumas (ainda poucas) reedições. Mas, como sempre, a net regurgita de álbuns esquecidos e a informação cresce a um ritmo demoníaco. O presente álbum:
É uma edição da Soul Jazz, editora criteriosa, que abriu um capítulo nas suas edições para "German Rock and Electronic Music". A colectânea, que também pode ser comprada em vinil, vai buscar muito boa música e fá-la acompanhar de um excelente livrinho, com fotos, breves introduções dos grupos e uma história do movimento. Os temas foram remasterizadas e têm um óptimo som. Aqui podem encontrar:
1. Can — Aspectacle
2. Between — Devotion
3. Harmonia — Dino
4. Gila — This Morning
5. Kollectiv — Rambo Zambo
6. Michael Bundt — La Chasse Aux Microbes
7. E.M.A.K — Filmmusik
8. Popol Vuh — Morgengruss
9. Conrad Schnitzler — Auf Dem Schwarzen Kanal
10. La Düsseldorf — Rheinita
11. Harmonia — Veterano
12. Faust — It's A Rainy Day, Sunshine Girl
13. Neu! — Hallo Gallo
14. Cluster — Heisse Lippen
15. Ibliss — Hi Life
16. Dieter Moebius — Hasenheide
17. Amon Duul II — Fly United
18. Popol Vuh — Aguirre 1
19. Ash Ra Tempel — Daydream
20. Tangerine Dream — No Man's Land
21. Amon Duul II — Wie Der Wind Am Ende Einer Strasse
22. Roedelius — Geradewohl
23. Can — I Want More
24. Deuter — Soham
A colectânea Krautrock - Music for your Brain é composta de cds sextuplos e já vai no 6º volume e é, obviamente, mais extensa e cobre outros fenómenos musicais paralelos, como o heavy e o heavy prog, e é muito boa também - e díficil de encontrar, não me admiraria que rapidamente se esgotasse.
Como livro, recomendo (à venda na Amazon):



Sem comentários:
Enviar um comentário