28 abril 2011

Um tema por dia (27/04/2011)

Hoje os caminhos levam-me ao Brasil de 70/ 80. Recentemente entrei no Cd duplo que apresenta o trabalho Maria Maria, de 1976, e o Ultimo Trem, de 1980, que esperaram edição durante 27 anos devido a problemas contratuais com a editora. Os álbuns são a banda sonora dos espectáculos de música / teatro / dança com o Grupo Corpo, em que Milton Nascimento estava activamente envolvido na década de 70.

Que Milton Nascimento é um dos maiores compositores e cantores brasileiros de sempre não deve causar hoje estranheza. O que causa alguma estranheza é que sempre tenha passado ao lado da divulgação massiva que merece, embora seja legitimamente amado por hordas de fãs. Os anos 70 foram os anos da sua afirmação criativa - este tema merecia não um breve post mas um longo artigo, álbum a álbum, tal a riqueza do seu trabalho. A primeira obra deste CD, Maria Maria, é a de um experimentalismo afro-brasileiro radicado na pós-escravatura e na herança miscigenada dos escravos. É uma homenagem e um alerta à sociedade contemporânea que Milton faz em 76. Ouvido hoje, este trabalho padece de ser uma transcrição do espectáculo, com momentos que não sobrevivem bem numa audição independente, mas afirma uma genuinidade de som, uma invenção harmónica e melódica, uma raiz que não tinha sido descoberta desta forma tão nua até aí.

Por aí vale a pena ouvir, com ouvidos descomplexados e não imaginando que depois dele se passou o que passou. Entrar na música de Milton nesta época é como entrar numa mina (não é por acaso que ele é natural de Minas...): escura, imprevisível, mas revelando gemas em estado bruto num percurso sucessivo e sempre revelador.

Este link tem, não a famosíssima Maria Maria, mas Maria, três filhos, que (espero), mostra o que refiro acima e ainda as ligações ao jazz que fizeram de Milton uma figura querida de tantos monstros sagrados, como Wayne Shorter, Herbie Hancock ou Pat Metheny.

http://www.youtube.com/watch?v=Wa0yL2xymlE

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