15 maio 2011

Jonesy, uma banda esquecida de progressivo inglês

Os Jonesy existiram entre 1971 e 1974, editaram três álbuns, deram-se mal com a editora e o promotor e acabaram, não sem terem antes gravado um quarto álbum cujas masters foram roubadas juntamente com os instrumentos e que sobreviveu em algumas cópias em cassete, para vir a ser editado em 2003. Os seus álbuns foram “No Alternative”, “Keeping up…”, “Growing” e o póstumo “Sudden Prayers Make God Jump”. A editora Esoteric, que tem feito um excelente trabalho de recuperação de álbuns antigos e esquecidos, dedicou-lhes uma CD duplo que reúne os primeiros três álbuns, e que é absolutamente fundamental.

A minha história com os Jonesy: conheci-os primeiro através de uns temas numa cassete gravada por um amigo de um amigo. Um dia, na feira da Vandoma, no Porto, encontrei o álbum “Growing” e comprei-o por uma soma ridícula. E desde aí persegui os discos deles, sem sucesso, até ao advento da internet, que me permitiu finalmente conseguir a sua obra completa em ficheiros.

Os Jonesy não serão talvez sequer uma banda de culto; no entanto, obtiveram o prémio Montreux Diamond Award em 74, competindo com álbuns como “Starless and Bible Black”, dos King Crimson, “Innervisions”, de Stevie Wonder ou “Planet Waves” de Bob Dylan. Isto já diz alguma coisa, sobretudo tratando-se de um banda que estava longe de ser a coqueluche da Grã-Bretanha.
O primeiro álbum, “No Alternative” é, na minha modesta opinião, o mais fraco, devido a uma produção pobre, que o atira para uma categoria quase de proto-prog, embora a momentos se pareça com os Manfred Mann. Como seria de prever para uma banda prog desta época, o som era impulsionado a doses massivas de mellotron. A guitarra de Evan-Jones, que já tinha sido um bem sucedido músico de sessão, é um dos pontos altos. Em alguns temas é óbvia a influência de King Crimson do 1º ITCOTKC, como em “Heaven” e em “Pollution”, que vai ao ponto de emular o refrão de Epitaph, só que em vez “I fear that tomorrow I’ll be crying” é “Someday soon we’ll be crying”. Não é um mau álbum, mas hoje alguns temas soam datados e, por comparação, menos conseguido que os posteriores. Por este álbum, hoje teriam apenas uma nota de rodapé na história, tal a quantidade de álbuns excelentes que se produziram na primeira metade dos setenta.

É preciso dizer que o grupo nasceu da força de um guitarrista australiano, John Evan-Jones, que encontrou no teclista Jamie Kaleth a força anímica necessária para fundar a banda. Ao segundo álbum tiveram um reforço de peso, o trompetista Alan Bown, que já tinha créditos firmados com o Alan Bown Set, e que deu um cunho de originalidade ao som da banda. O segundo álbum, “Keeping up…”, não é o mais apreciado, lugar que vai para o terceiro, mas para mim é o melhor deles.

Continuam fortemente influenciados pelo lirismo de King Crimson, da fase de “Moonchild” e “I talk to the Wind”, mas também pelo free jazz, que, pelo trompete de Bown, vai mesmo buscar alguma ambiência a Miles Davis. É neste álbum que os Jonesy mostram todo o seu potencial e fazem do cocktail de influências uma mistura original. Sobretudo as composições mais líricas, como “Sunset e Evening Star” e “Song”, são brilhantes. O inicio, com “Masquerade”, por vezesfaz lembrar os Moody Blues no refrão, mas a guitarra wah-wah e muito reverb dá-lhe um tratamento ácido. Uma coisa que se nota neste álbum é uma presença orquestral discreta mas intensa, normalmente dada pelo mellotron, que cai muito bem (eu, como muitos progheads, tenho um fraquinho por este instrumento temperamental…). As composições são muito articuladas, com estrutura, nada repetitivas. E é muito difícil fazer música bonita sem ser piegas. Normalmente cai-se na volta fácil, no acorde perfeito, no rodriguinho bonito. “Sunset and Evening Star” e a sua continuação são dos temas mais bonitos dos 70, mas sem serem delicodoces. Algo que os italianos sabiam fazer bem, embora às vezes também exagerassem no açúcar (como os Banco Del Mutuo Soccorso), e que os melhores ingleses também sabiam, como (outra vez os mesmos), King Crimson, ou os Supertramp. Este tema encadeia-se com o seguinte “Preview”, que é essencialmente um solo de trompete sobre piano e cordas, numa melodia lindíssima. A este segue-se “Questions and Answers”, e o resto do álbum desenrola-se como um sucessão de temas encadeados, como era de rigueur para qualquer grupo que quisesse parecer bem pensante. O facto é que quando bem feito, resulta. Há ainda lugar para uma menção especial a “Critique (with exceptions), improviso de guitarra solta a desafiar o trompete, que vai ao jazz e volta e que é o tema em que Miles vem à memória.

“Keeping up…” deveria ter lugar cativo nas estantes daqueles que levam a sério o prog, e, porque não dizê-lo, a música.

O seguinte, “Growing”, o tal que lhes grangeou o prémio de Montreux, é um passo em frente em direcção a um som mais coeso, mais rock e mais jazz, sem dúvida excelente, mas que perde um pouco do tom naïf que para mim faz o encanto de “Keeping up…”. Nevertheless, nada a apontar. O álbum abre com “Can you get that together?”, que tem um pouco das massas orquestrais de “Sailor’s Tale” dos KC, mas com um baixo saltitante e um tom jazzy. Não tem o encanto angular de “Sailor’s Tale”, que está lá em cima no panteão dos imortais. O tema dos Jonesy é uma boa malha rock e não um buraco negro que engole a matéria à sua volta. O tema seguinte aparece como quando se está numa festa barulhenta, se abre uma porta e se encontra uma família em vigília. Note-se que isto nada tem de negativo; é apenas uma forma de descrever a transição – o tema em si é até alegre, com o tompete de Bown a ser secundado pela orquestra, que se funde num solo de guitarra excelente de Evan-Jones, sobre um fundo circular. Consigo explicar? O melhor é ouvirem.

Bom, para não ser exaustivo, o álbum termina com o tema “Jonesy”, uma jam session em free que tem a particularidade de ser orquestrada pelo Simon Jeffes que viria a fundar a Penguin Cafe Orchestra. Por este tema dá para perceber o que a crítica apreciou neles: um proficiência instrumental que lhes permitia passear-se à vontade entre estilos, improvisar e ser interessantes.

O quarto ainda não o ouvi suficientemente para emitir um juízo fundamentado. Entretanto, no site da banda falam de um quinto álbum a ser lançado em finais de 2010, com tema inéditos e regravações, que desconheço se veio efectivamente a ver a luz do dia.

Foi pena que tivessem acabado zangados e com falta de dinheiro. Mas o que deixaram é mais do que suficiente para que sejam ouvidos e apreciados. Na opinião deste Perú atemorizado com o Natal, este é um trabalho que se deve ter em casa para quando duvidamos do poder criador da espécie humana, por exemplo, depois de dois minutos de Mariah Carey.



4 comentários:

  1. Eu tinha feito um comentário a este post mas não está cá! Dizia qualquer coisa sobre o album Growing; falava sobre a colaboração entre os Jonesy e o Fripp; e perguntava-te quem era o "amigo de um amigo"... Seria eu? É que recordo-me de ter uma cassete gravada pelo Paulo G, nos meados de 80, precisamente com o album Growing, e de a ouvir contigo (acho...). Essa cassete tocou até ao fim (literalmente), e depois foste tu que, já em Lisboa, me gravaste um CD (portanto, já na era dos cd's!).

    A história em torno desta cassete levou-me a falar, no tal comentário, dos Fruupp. Não por eles terem alguma coisa a ver com os Jonesy (apenas partilham o estilo "progressivo"), mas pelo facto de eles viverem no lado B da tal cassete. Por causa deste acaso, sempre os associei...

    Na realidade, ambas as bandas têm uma coisa em comum: não são lá muito conhecidas, e os respectivos discos não são dos mais fáceis de encontrar.

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  2. pois... o comentário, por alguma razão, não ficou gravado. Na verdade, tu foste o amigo, mas o álbum era o keeping up... gravado pelo Paulo G, seguro. Os Fruupp são outra história também interessante, mas no caso deles passada na Irlanda, e que já aflorou num post antigo no Peru (podes fazer Search), mas eu também os associo bastante. Talvez por terem sido contemporâneos no meu conhecimento. Os Fruupp mais naïves, mas quem não gosta de uma naïvada legítima e boa??

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  3. ...já agora, na mesma cassete havia um tema de Meal Ticket - nunca mais ouvi nada deles nem sequer encontrei qualquer obra. Sabes alguma coisa?

    Vou investigar...

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  4. Blessed be the internet... os Meal Ticket já vêm a descer do cyberespaço para o meu disco...

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