14 setembro 2011

Communism, Anarchism, Nihilism

Algures no tempo, ao longo do ano de 77, era bastante vulgar ver-se, nas montras das discotecas, uma capa que tinha a imagem de um disco em forma de lâmina de serra eléctrica. Era o “Saw Delight” dos CAN. Na verdade, nada de especial numa época em que a indústria discográfica permitia aos artistas plásticos e aos fotógrafos uma liberdade criativa sem precedentes. Mas a imagem impressionou-me bastante (ao ponto de ainda recordar os momentos em que a vi), talvez porque contrastava com muito do que se via na época ou, melhor dizendo, com muito do que eu via na época – nada que se parecesse com as capas do Zappa (algumas desenhadas pelo próprio), do Roger Dean, do Andy Warhol, do Matias Klarwein e de outros que normalmente entravam e saíam de minha casa.

Como diz o velho aforismo, “quem diz a verdade não merece castigo”. Confesso que não fiquei, nessa altura, particularmente impressionado com a música “Krautrock” e, no que respeita os CAN (co-fundadores do movimento), não vibrei com o primeiro álbum da banda, “Monster Movie” (gostava mais da música dos Amon Düül II…). Porquê? Certamente porque ouvi o disco uma ou duas vezes sem prestar atenção; porque não é um disco fácil e andava ocupado a ouvir outras coisas ou porque as capas dos discos eram, na época (talvez sempre o tenham sido), uma espécie de extensão plástica da música gravada…

A verdade é que perdi bastante até ao dia em que o “Saw Delight” me foi oferecido pelo Luís, no início do passado mês de Agosto… Mas o importante a dizer é que vale a pena conhecer este álbum dos CAN, o qual utiliza uma linguagem eclética (há diferenças importantes face ao “Monster Movie”, a avaliar pela remota memória que tenho deste) que precede e anuncia a expansão desse imenso caldeirão musical a que se chama “world music”. Vale a pena apreciar a beleza encantatória das ambiências que raiam do seu universo minimalista, envolvente e magistralmente integrado numa secção rítmica precisa e intrépida (o Jaki Liebezeit faz inveja às melhores caixas rítmicas do mercado). Quase paradoxais são também as sensações de relaxamento e de euforia que parecem coexistir num contexto muito arejado, jubiloso e fresco … tudo muito claro, leve e luminoso, a contrastar com a precisão matemática da secção baixo-bateria! Excelente música! 

Curiosamente, a segunda música do álbum, “Sunshine Day and Night”, imediatamente me fez lembrar partes do “CANtigas de Maio” do nosso José Afonso, trabalho genial e indiscutivelmente inovador, cujos elementos étnicos me ficaram mais nítidos depois da audição deste delicioso “Saw Delight”…

Finalmente e para quem não sabe, foi durante uma estadia relativamente prolongada na cidade de Nova York (1968), durante a qual conviveu bastante com músicos como Steve Reich, Terry Riley, John Cale, Lou Reed, restantes membros dos “The Velvet” e outros, que Irmin Schmidt – distinto pianista e compositor nascido e criado nessa Alemanha de poetas e pensadores, cujo génio foi tão (justamente) celebrado no período romântico –, diz ter sido corrompido pelo inefável fulgor criativo da época, designadamente pelo que se andava a fazer na música Rock! Uma vez regressado à Alemanha (país em grande efervescência intelectual que continua a valorizar a educação musical dos seus filhos do pós-guerra), apressou-se em fundar os CAN, com outros músicos de carreira e abertos a novas experiências, como sejam o excelente baixista Holger Czukay, o guitarrista e violinista Michael Karoli, o baterista Jaki Liebezeit e o vocalista Malcolm Mooney (este último acabou por sair logo em 1969).

Não me vou alongar sobre o grupo propriamente dito. Há imenso material disponível para quem quiser saber mais sobre os CAN, sendo certo que o importante é mesmo ouvir a extraordinária música produzida por este extraordinário grupo. E o “Saw Delight” é apenas o nono álbum de um conjunto de doze, que certamente vale a pena conhecer!

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