18 outubro 2011

O concerto de Crosby & Nash no Royal Albert Hall – 10 Outubro 2011

Crosby and Nash… dirão muitos que lhes falta o Stills e o Young, que, esse sim, era o dream concert. Era sim senhor. Mas, como o sonho não há maneira de se realizar (pelo menos o Young não está para estes actos de revivalismo, o caminho dele é sempre em frente), há que aproveitar o que há.

E o que houve foi um excelentíssimo concerto, que digo sem hesitações que foi dos melhores que vi. Pela música, pelos músicos, pelo local e pelo facto muito especial de dois velhotes (mais de 70 anos!) estarem ali a fazer música por pleno direito, com emoção e força como há 40 atrás, sem que esse facto parecesse revivalismo ou um esforço para contentar o público…

David Crosby já passou por muito na vida, terríveis dependências e doenças, viveu os píncaros da glória e a amargura do esquecimento; fez a travessia do seu deserto pessoal (porra! Isto agora parecia o Paulo Coelho!...). Engordou e parece uma pêra, que já foi bebêda. Já Graham Nash mantém a pinta de englishman sedutor que lhe permitiu fazer rodear-se de algumas das beldades da sua geração (Joni Mitchell incluída, a destinatária de “Our House”). No palco, tratam-se como dois velhos amigos, picando-se mutuamente e demonstrando a cumplicidade de uma carreira e uma vida já longas.

O que é arrepiante é ouvi-los. Os dois juntos fazem uma das mais belas harmonizações do rock. E cantam hoje como antes, Crosby melhor que em muito do seu trabalho a solo. “Almost cut my hair”, a bandeira libertária de uma geração e um dos hinos dos 60, soa hoje mais urgente e poderosa que ouvida no mítico “Crosby, Still, Nash & Young”. E o mesmo se repete em todos os temas. “Guinnevere”, do primeiro álbum, é uma filigrana medieval para duas vozes. “To the last whale” é de fazer subir aranhas pela coluna. “Wooden ships” foi uma excursão pelos antigos e novos caminhos - e é preciso coragem para arriscar fugir das fórmulas já provadas.

As mais de duas horas do concerto sumiram-se como areia na mão. Começaram com “Eigth Miles High”, numa homenagem aos Byrds de Crosby antes dos CSN. Pelo meio houve a subida ao palco de Allan Clark, dos Hollies, a banda anterior de Nash, para cantar “Bus Stop”. Houve uma dedicatória do concerto a David Gilmour, “pela trabalho inspirador dele”. Houve uma secreta esperança de que ele se juntasse à banda em palco, retribuindo o que eles fizeram no concerto dele no RAH, mas em vão. Foi com a sensação de oportunidade perdida que soube depois que Gilmour assistiu ao concerto num dos camarotes…

Acabou com o Royal Albert Hall a cantar em coro “Teach your children”.

A banda era de excelente qualidade, qualquer um deles músico de excepção, sendo difícil destacar algum deles, embora o guitarrista me tenha parecido incrivelmente versátil e competente. Mas qualquer um deles é um músico de mão cheia por direito próprio. Com a curiosidade do filho de Crosby tocar (e bem!), piano.

Um comentário final para a especulação sobre as verdadeiras motivações de tournées como esta. Acredito que sejam pecuniárias, o que para mim não levanta problemas de maior. São músicos, vivem da música, têm que fazer dinheiro dela. Provavelmente, os royalties, se os souberam acautelar através de contratos correctamente feitos, não são hoje o que foram no passado. Tanto a sua projecção como artistas como a pirataria digital devem fazer com que a sua notoriedade seja bastante superior à sua rentabilidade… Os concertos são hoje uma das fontes de rendimento dos artistas, aos quais somam as edições em DVD (também eles pirateados…)e o merchandising. Curiosamente, no concerto era possível comprar por 20 libras a gravação do mesmo, a fazer por FLAC, lossless ou mp3 a partir de um site. Uma forma inteligente de fazer dinheiro e satisfazer a nostalgia de quem assiste. Acabo de fazer o download do concerto, e é certamente diferente poder dizer “este é o concerto que ouvi no RAH” de ouvir uma qualquer outra gravação ao vivo. Portanto , façam o dinheiro que quiserem desde que nos dêem música desta qualidade.

A banda:
James Raymond -keyboards
Dean Parks – guitar
Kevin McCormick- bass
Steve DiStanislao on drums.

O alinhamento
(tirado de memória, alguns nomes podem não corresponder ao nome real dos temas…)


1ª parte
Eigth miles high
I used to be king
Long time gone
Marrakech express
Lay me down
Old soldier
A song before I go
Slice of time
Don't dig here
Critical mass
To the last whale
Almost cut my hair

2ª parte
Alan Clark the hollies - bus stop
Our house
Guinnevere
In your name
Who are the men
They want it all
Having it all
Vendome
Cathedral
Deja vu
Military madness
Wooden ships

Encore
Chicago
Teach your children


Alguns "takes" do concerto carregados no Youtube:

Almost Cut my hair


Cathedral


Lay me down


Teach your children

1 comentário:

  1. Arrepiante, grandioso, único! Sem dúvida, o melhor concerto que assisti na vida. O RAH é um local fantástico, que nos envolve, que nos faz sentir especiais, abençoados. Os dois artistas (e o resto dos músicos, entenda-se) foram brilhantes. Quem, como eu, não dominava inteiramente os álbuns e as canções, saiu de lá fascinado.

    Muito boa música. Artistas de primeira categoria.

    Partilho um desejo profundo: voltar ao RAH para ver actuar o grande mestre David Guilmour.

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