Coleccionar discos é um enorme prazer, porque os discos são objectos que nos dão prazer; não é só a avidez da colecção e possuir raridades que move os coleccionadores. A música, ao contrario de outras colecções, tem uma utilidade que não se esgota na posse do objecto.
Diria mesmo que neste tempo de democracia digital, em que tudo está acessível a todos, coleccionar discos é uma forma de resistência. Quanto mais o computador é inundado de downloads, maior é a vontade de o fechar e pôr no prato o disco preto.
A última panca que me deu é procurar singles. Nunca liguei nada aos singles, que eram vistos como o parente pobre do disco nobre, o 33 rpm. Contudo, e não ignorando o facto de que por vezes os singles tinham melhor som que os irmãos mais velhos, o single tem o apelo especial de ser o tema escolhido do LP. E por vezes precediam mesmo a edição do LP. E depois há os misteriosos lados B, que às vezes acumulavam pó, outras vezes escondiam pérolas.
As horas passadas a vasculhar discotecas são horas de expectativa: até que nos sentemos em frente ao gira-discos (depois de convenientemente lavados os discos) e comecemos a desfrutar.
O que é importante é criar uma colecção que tenha a nossa cara. Procurar as músicas com que nos identificamos. Ou então procurá-las com um fim específico, como fazer uma festa revivalista.
E depois há o prazer físico do objecto: a capa (quando não é uma das capas genéricas brancas), o rótulo da editora, as próprias editoras míticas, como a Vertigo, a Blue Note ou a Tamla Motown...
Uma discoteca de Lisboa tem à venda a preço de saldo um espólio importante de singles, a maior parte proveniente de rádios, com muitas edições inglesas e americanas. Nas buscas no espólio tem aparecido coisas interessantes, embora seja preciso estar atento à qualidade dos discos. É que os singles, pela sua menor importância e maior portabilidade, sempre foram a festas onde se entornavam copos e conviviam com agulhas rombudas e foram desprezados para cantos esconsos onde às vezes os gatos e os cães iam aninhar-se. Daí ser fundamental a "desparasitação"...
Os raids recentes permitiram desenterrar algumas preciosidades:
Laura Nyro . It's Gonna Take a Miracle / Desiree - edição original americana, lançada a 11 de Fevereiro de 1972. Laura Nyro foi uma das melhores autoras e cantoras americanas dos anos 70, um verdadeiro ídolo da ala mais esclarecida da música popular americana. Joss Stone é uma herdeira da sua intensidade (embora não da sua criatividade).
David Crosby - Traction in the rain / Orleans - 1971 - edição portuguesa
Beach Boys - God Only Knows / Beach Boys Medley - 1966 - edição inglesa - belíssimo tema
Beach Boys - Surfin' USA / Shut Down - edição inglesa
John Lennon & Plastic Ono Band - Power to the People / Open your Box - 1971 - edição inglesa da Apple Records
Plastic Ono Band - Give Peace a Chance / Remember Love - 1969 - edição inglesa da Apple, com a nota impressa: recorded in room 1742 Hotel La Reine Elizabeth, Montreal
John Lennon - Mind Games / Meat City - 1973 - ed. inglesa
Amen Corner - (IF PARADISE IS) HALF AS NICE / HEY HEY GIRL - 1969 - curiosidade de Gales que conta como vocalista com Andy Fairweather Low, actualmente a tocar com Roger Waters
Joni Mitchell - Casey / This Flight Tonigth - 1971 - ed. portuguesa - do álbum "Blue", uma das suas obras-primas
Jimmie Spheeris - The Original Tap Dancing Kid / Beautiful News - ed. americana, 1973 - é quase impossível encontrar cds deste autor americano de culto (há alguns à venda na net, usados, entre 20 e 30€), mas ainda se vão encontrando alguns vinis.
John Kongos - Sometimes it's not enough/ He's Gonna step on you again - 1971 - mais que uma raridade, é uma obscuridade, porque este sul africano que se mudou para Londres em busca de êxito produziu muito pouco.
Elvis Costello - Accidents will happen 1979 - ed. inglesa - um single de um dos primeiros Lp's de Costello (Armed Forces), tem a particularidade de, em referência ao título, a capa estar impressa na parte de dentro e não da parte de fora.
Marlene Dietrich - Lily Marlene / Symphonie - O tema mais conhecido da diva do cinema, numa reedição de 1980.
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