Sim, já sei. Estamos quase no fim de Janeiro e já ninguém quer saber do ano passado. As distinções das listas anuais já lá vão há muito. Eu estranho sempre a certeza que transparece das críticas laudatórias de final de ano, mesmo em relação a discos que acabaram de sair. Mas isso provavelmente é porque “eles” são críticos encartados e a tempo inteiro e eu sou um pobre Perú a ouvir rádio no deserto por um transístor que só funciona de vez em quando.
Seja como for, preciso do meu tempo para amadurecer as escolhas. E portanto, mais uma vez, sem dizer que são os melhores e obviamente mostrando, pelas minhas escolhas, o espectro da minha análise aqui vão os trabalhos que me excitaram a pituitária em 2011 e continuam a excitar.
2011 não foi um ano de grandes trabalhos. Foi um ano de trabalhos bons. Quais?
1. FERVENTES
TOM WAITS – BAD AS ME – Mr. Garganta Funda volta com um disco que faz a ponte entre o crooning bluesy e jazzy dos 70 com a aventura desarrumada desde os 80. Provavelmente o seu melhor disco desde “Alice”. Há quem vá mais além…
JUNE TABOR – ASHORE – Não é por acaso que as primeiras duas entrada são ocupadas por gente que tem mais de vida musical que eu de idade (ou quase). Há estados de bonomia e equilíbrio que só a idade traz: uma contemplação serena da vida, o gosto das coisas simples. June Tabor é a maior voz da música popular, é uma intérprete de excepção e deu-nos mais um disco magnífico em 2011. Basta o inicial Finisterre para entendê-lo.
JONATHAN WILSON – GENTLE SPIRIT – Blues from Laurel Canyon? O título do album clássico de Joh Mayall (e meu personal favourite), assenta bem a esta revelação do final do ano, com um disco que bebe tudo nos anos 60–70 da California e revela um compositor e guitarrista inspirado. Deem-lhe companheiros à altura e podemos ter um novo CSNY.
PJ HARVEY – LET ENGLAND SHAKE – Coragem e bravura desta mulher que é uma espécie de reserva moral do Reino Unido, inconformada e independente. Música aguerrida e cativante.
THE UNTHANKS – LAST – Disco belíssimo, mistura de temas originais e versões (incluindo uma de Tom Waits e outra de Starless, dos King Crimson). Raízes na folk mas frutos nas estrelas.
2. QUENTES
BILL CALLAHAN – APOCALYPSE – o meu favorito continua a ser SOMETIMES I WISH WE WERE AN EAGLE, mas este APOCALYPSE em tom menor é sem dúvida muito bom.
FLEET FOXES- HELPLESSNESS BLUES – Não há como evitá-lo. Um disco desigual, menos fresco mas também mais estruturado que o seu álbum de estreia. Os FF são uma reserva estratégica que vai continuar a valorizar-se.
BEIRUT – THE RIPTIDE – Um trabalho com um som jovial, ainda com as ligações ao folclore dos balcãs que lhe dão “aquele” cunho especial e boas canções de uma banda que ainda não deu um passo em falso.
FEIST – METALS – Mais aguerrido que THE REMINDER, o melhor até hoje desta canadiana.
DEUS – KEEP YOU CLOSE – Mais um bom disco desta banda belga. Tom Baarman é um espírito independente e leva os dEUS sempre a estados de excitação consideráveis. A conferir dia 3 de Fevereiro no Porto e no dia seguinte em Lisboa.
TINARIWEN – TASSILI – Os guitarristas do deserto numa toada mais calma, a mesma intensidade hipnótica e colaborações com os TV on the Radio e Wilco.
JAKSZYK, FRIPP AND COLLINS – A SCARCITY OF MIRACLES – Na falta de um disco dos King Crimson, um disco de Jakszyk - Fripp com a colaboração do veterano Mel Collins em que sente o espírito crimsoniano, mas é algo diferente: mais próximos dos discos “Landscape” de Fripp do que do fervilhar elétrico dos ano 80 ou das descargas elétricas dos últimos discos. Há quem diga que é o melhor dos últimos 30 anos…
KURT VILE – SMOKE RING FOR MY HALO – crooning contemporâneo em bons temas, com alma; uma “voz” original. Que mais pedir?
BON IVER – BON IVER – discute-se se é melhor que o “álbum da cabana”; eu por mim não sei, o tempo o dirá, mas este é um bom companheiro de sala.
LUCINDA WILLIAMS - BLESSED – mais um tour de force desta senhora, diria mesmo Dama, se esta palavra não tivesse ganho um cunho diferente no hip hop, português. Sensibilidade e bom senso e excelentes músicos em composições quentes e profundas.
MY BRIGHTEST DIAMOND – ALL THINGS UNWIND – Ainda ando a namorar este. Terceiro disco de Shara Worden, aka MBD, gravado com pequena orquestra de cãmara. Sensível e delicado. Bom.
GANG GANG DANCE – EYE CONTACT – caminhos novos e irrequietos para a música de raiz eletrónica traçados a partir de Brooklyn
CHICO BUARQUE – CHICO –Chico Buarque fez mais um grande disco, com temas melancólicos por onde passa a sabedoria da velhice e onde reafirma o domínio de uma arte musical e linguística que é só dele.
PAT METHENY – WHAT’S IT ALL ABOUT – Disco a solo de PM, com temas que, diz ele, sempre o acompanharam, de SOUNDS OF SILENCE a GAROTA DE IPANEMA ou ALFIE. O que o faz especial é que é um dos trabalhos mais íntimos de PM e algumas das versões de facto releem o tema, como é o caso da GAROTA, que perde o tropicalismo e se transforma num tema frio, quase sinistro.
BURAKA SOM SISTEMA – KOMBA – Máquina de ritmo imparável e criatividade dançante. Só para mentes abertas e sem problemas de serem apanhados com a mão na kizomba!
3. MORNOS
ANNA CALVI – ANNA CALVI - Estreia em tons de vermelho-ouro para uma rapariga fulgurante, a querer mostrar-se na voz e na guitarra. Foi um dos fenómenos-sensação do início do ano. Não é tão boa como crê. Tem que mostrar mais qualquer coisinha para me tirar esta sensação de prato saboroso, mas só meio cozinhado.
AMY WINE HOUSE – LIONESS - Tenho ouvido com satisfação o disco póstumo da Senhora Adega, embora não embarque nas declarações de amor fatais que vi tantos debitarem após o seu infeliz passamento (estranha tendência esta dos portugueses, desde a tragédia de (Pedro e Inês, para endeusarem as mortas…), confesso-me agradado com a sua voz e a sua versatilidade interpretativa, com um toque soul muito clássico mas sem copiar exatamente ninguém.
LUISA SOBRAL – THE CHERRY ON MY CAKE – Pela ousadia e persistência de ir até onde teve que ir para gravar o seu disco (Nova Iorque), contra a surdez das editoras portuguesas, esta cereja fresquinha merece um lugar no coração em 2011. Temas leves mas bem feitos, uma voz que fica e uma atitude muito positiva.
4. HIS GREATEST MISSES
Roubando o titulo ao “Best Of” de Robert Wyatt, mas desta vez em versão literal, eis as maiores deceções de 2011:
BJORK – BIOPHILIA – Muito barulho por nada. Todo o conceito de exploração da música através de uma aplicação ipad imaginado pela Björk para o seu álbum e a tentativa de fazer música de uma forma nova esbarram num disco pouco imaginativo, com honrosas exceções.
PETER GABRIEL – NEW BLOOD – Novo sangue? Transfusão a Peter Gabriel? … O que fazer quando a criatividade esmorece? Pega-se nas músicas antigas e que nos deram o sucesso e passa-se uma patine orquestral, e para parecer sério, retira-se tudo o que cheira a instrumento rock. Resultado? Um pastelão bem embrulhado. Peter, a gente gosta de ti como és. E ainda ouvimos as músicas antigas.
RADIOHEAD – TKOL RMX 1234567 – clics e clacs de nomes sonantes para desconstruir o último álbum, sem construir nada que seja verdadeiramente interessante.
JAMES BLAKE – JAMES BLAKE – a fraude do ano. Eleito pelo BLITZ como álbum do ano, grandes encómios e loas à beleza das canções (sendo que Limit to your love é da Feist e não dele e bem melhor na versão dela). No próximo ano estará esquecido.
JOSH T PEARSON – Apesar de idolatrado pela crítica, (ainda) não me convenceu. O seu tom bíblico faz lembrar o Cohen mais solene, mas é um chato. Cohen tem sentido de humor e sabe esgalhar uma bela melodia. O Pearson não.
METRONOMY – THE ENGLISH RIVIERA - Onde é que está a grande novidade desta música? Onde é que estão os grandes temas do álbum, para ser considerado um dos grandes de 2011? Não sei.
5. AMORES QUE SE DESVANECERAM
Fogachos que não resistiram à passagem do tempo; neste caso, escassos meses. Promessas que não se cresceram.
BATTLES – GLOSS DROP (um bom concerto em Paredes de Coura, um bom conceito, mas o álbum não se aguenta como um todo)
ESBEN AND THE WITCH – VIOLET CRIES
TAME IMPALA – INNERSPEAKER – Pareciam interessantes, com um rock místico, grande e orgânico, mas hoje acho-os cansativos e com poucos caminhos a desenvolver.
6. OS QUE AINDA NÃO OUVI DECENTEMENTE,
(e que aparecem bem referenciados em algumas tabelas) mas estão com um OUTLOOK POSITIVO
KATE BUSH – 50 WORDS FOR SNOW
PAUL SIMON – SO BEAUTIFUL OR SO WHAT
ELBOW – BUILD A ROCKET BOYS
WILCO - THE WHOLE LOVE
THE FELICE BROTHERS – CELEBRATION, FLORIDA – um excelente tema, “River Jordan”
WHITE DENIM – D
KEITH JARRETT – RIO – ando a ouvir a espaços e com agrado o novo ao vivo do grande- pianista-que-é-muito-esquisito-com-o-público-quando-toca-ao-vivo, gravado em Abril do ano passado no Rio de Janeiro, e estou a gostar.
7. REEDIÇÕES
Esperariam certamente que pusesse aqui em lugar cimeiro a mega-operação de marketing para vender mais uns discos dos PINK FLOYD, mas, por um lado, além de um “The Wall” com um som atualizado, não ouvi mais nada, e, por outro, ainda não me tinha esquecido dos PF para ir a correr redescobri-los.
THE BEACH BOYS - THE SMILE SESSIONS - esta música ganha outra dimensão quando ouvida hoje. Entre a ingenuidade e a complexidade, há rasgos de génio. E não é só GOOD VIBRATIONS.
MERCURY REV – DESERTER’S SONG – Um dos discos maiores dos anos 90 (1998), espécie de sinfonia rock visionária e demente.
ROY HARPER- STORMCOCK – como diz a wikipedia, um género híbrido que é da autoria de Harper e do qual é praticamente o único seguidor. Este disco, com a colaboração de Jimmy Page (que também faria com ele o WHATEVER HAPPENDE TO JUGULA?), são 4 temas longos e belos, que os Fleet Foxes e outros arautos da Americana ouviram. Se não ouviram, deveriam ter ouvido.
CAN – TAGO MAGO – todas as razões são boas para relembrar os CAN, uma das bandas mágicas dos anos 70, precursores e visionários, aqui num dos seus melhores discos.
QUEEN – DEEP CUTS 1 e 2 – Este não é o típico e enésimo Greatest Hits. Não que seja muito fã dos QUEEN, e definitivamente nada fã da maionese azeda em que FREDDIE MERCURY os transformou nos anos 80, levando-os a um empobrecimento musical penoso, quando não a uma pop sentimental e vazia de conteúdo. Mas estas duas coletâneas vão recuperar temas desde QUEEN I até FLASH GORDON que contêm o mais sujo, o mais gorduroso e visceral que eles fizeram. Fez-me olhar de maneira diferente para a herança da banda.
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