10 abril 2011

O gosto dos outros

Uma recente discussão, no bom sentido de que todas as discussões são boas, quando honestas e bem intencionadas, sobre o que define o bom gosto, leva-me a escrever algumas notas pessoais sobre o assunto. Que naturalmente merecem discussão.
Qualquer definição sobre a palavra “bom” cai no campo da subjectividade. O “bom” é bom para alguém, e esse alguém vive num tempo, num espaço e tem uma determinada rede à volta dele.
Admitindo que é possível definir o “bom” como algo comum a um conjunto de indivíduos dentro dessas coordenadas históricas, tenho para mim algumas regras básicas.
1) O gosto tem padrões mínimos.
2) O gosto educa-se, move-se e apura-se.
3) O gosto é muito influenciado pela experiência, logo pela exposição à quantidade de fenómenos diferentes a que está sujeito.
4) O gosto não é unívoco.
A mais polémica afirmação será talvez a primeira. Quem está em condições de impor esses padrões mínimos? Quem terá tão bom gosto que terá a certeza da validade das suas recomendações? Como conciliar os interesses de afirmação pessoal e procura de ribalta com a escolha desinteressada das melhores opções? Como evitar que as escolhas sejam elitistas apenas por serem raras, sem conteúdo válido?

Será o gosto dos outros um alien?
Será Ágata o derradeiro mau gosto?
Será Amália a deusa que deixou a terra?
Será o rock progressivo a derradeira afirmação do mau gosto?
Será o jazz o licor dos deuses?
Será o classicismo romanticista o esplendor da vida na terra?
Será o kitsch mau gosto?
Será a pop art má?
Será a pop art boa?

Acredito que é possível ter patamares minimos, se o espírito é livre. O “mínimo” será sempre o resultado de um preconceito. Porém, enquanto houver convenções, elas serão estabelecidas por alguém. Um indivíduo (ditadura, deus, grande líder), uma massa (o povo, a audiência, a internet), ou os homens livres (os filósofos, os estetas, os pensadores). Revejo-me nestes últimos, por cegueira dos restantes. Os “mínimos” resultam da plataforma instável que constroem um conjunto de semi náufragos que têm que se equilibrar em poucas tábuas para sobreviver.

É a minha opinião.

17 comentários:

  1. “O Gosto dos Outros”… excelente filme da Agnès Jaoui, que recomendo vivamente!

    Igualmente excelente este Post do Luís, bem na sequência do que falávamos ontem…

    Há muito que abandonámos os valores absolutos (por vezes fomos longe de mais…), não querendo isto dizer que não existam valores objectivos, isto é, valores aceites de forma unânime por uma maioria ou um grupo de indivíduos (pode ser uma minoria) numa comunidade ou numa dada civilização, num dado contexto histórico (temporal).

    Classificar um objecto portador de mensagem – seja este um artefacto estático ou produzido no tempo (como a música) – como algo de que se gosta e aprecia muito intensamente, não é resultado exclusivo de propriedades intrínsecas a esse objecto, quer se trate de pintura, poesia, escultura, música. Esse objecto estabelece necessariamente uma relação muito especial com o sujeito e tem sobre ele um efeito psicológico fortíssimo e arrebatador, causador de uma experiência estética, religiosa, mística, o que seja!

    O que é espantoso é a presunção/confirmação de que esse objecto possa ter sido especialmente concebido a partir de uma experiência idêntica ou próxima do efeito que produz num dado conjunto de indivíduos, alvo da mensagem.

    É nesta ligação (que me parece existir em todas as comunidades) e no extraordinário efeito que produz que pode estar parte do que habitualmente chamamos de arte…

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  2. Quero ainda dizer (hoje acordei mais arrojado… isto tem dias) que admito a possibilidade de poder partilhar, com maior facilidade (mais rapidamente), uma “experiência estética” com um homem ou com uma mulher nascidos e criados entre os Bosquímanos do que com certos vizinhos, nascidos no seio da nossa cultura e criados na vivência do mesmo bairro (com todo o meu respeito e apreço por todos os seres humanos, sem excepção, com os quais partilho esta breve estadia na Terra – independentemente de se dedicarem ou não a estas questões do “gosto pela música”. Também a designação portuguesa “Bosquímano” pode ter uma conotação negativa… é claro que a intenção foi arranjar um exemplo de uma outra cultura diferente, nada mais).

    Digo que admito esta possibilidade porque acredito, ainda que possa estar errado, que o fenómeno de se apreciar e viver intensamente uma obra musical (quer se trate da segunda do Mahler, do “Sgt. Pepper's” dos Beatles, ou de um batuque executado com paixão) tem provavelmente mais que ver com o indivíduo (lado direito do cérebro?) e com os seus próprios hábitos do que com a cultura a que pertence, ainda que esta influencie esses mesmos hábitos (interesses intelectuais, entre outros).

    Todas as culturas têm na música uma parte importante da sua capacidade de comunicar (linguagem) e dentro dessas mesmas culturas haverá certamente indivíduos mais aptos a entender essa linguagem ou a vivê-la com maior intensidade do que alguns outros. E esses estarão, por certo, também mais aptos a receber outras informações; a ouvir e a aceitar facilmente estruturas e construções diferentes das que ouvem normalmente junto dos seus vizinhos – hoje em dia já quase todos (cada vez mais) podem ouvir música feita por todos… felizmente a informação está cada vez mais acessível, mesmo para os mais desfavorecidos economicamente.

    Tive o privilégio de participar em várias sessões verdadeiramente espontâneas e inspiradas de tambores (algumas delas com muitos participantes e com instrumentos de percussão variados). O resultado é verdadeiramente mágico e arrebatador! Principalmente no silêncio da noite, à luz de uma fogueira ou ao luar… e se me perguntam se a música que fazíamos era boa… claro que sim! Da melhor!

    Onde quero eu chegar com tudo isto? Na verdade, não sei muito bem. Apetece-me escrever enquanto penso nestas coisas (o Luís não se zanga, certamente), continuando a não conseguir responder por que razão penso que uma dada música, independente do estilo, é boa ou é má (fizeram-me essa pergunta recentemente) … por que razão penso e sinto que as quatro últimas canções do Strauss são uma das manifestações mais sublimes da criação humana? Por que razão considero que a música do John Coltrane é muito boa, por que gosto da música dos Moody Blues ou por que prefiro o John Adams aos outros “minimalistas” americanos? Talvez a resposta mais correcta seja: “porque sim”.

    Que nos pode dizer a nossa estimada antropóloga ao serviço no Peru sobre o assunto? Que não me canso de debitar disparates?

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  3. Caríssimos, tudo começou sobre o que define o gosto dos outros… A imagem/gosto “do outro” choca pela imagem de nós próprios porque nos convida à auto-crítica e à mudança, tirando-nos da nossa zona de conforto. O que por si só leva à acção simbólica e à criação de fronteiras. Como refere o Luís: “é possível definir o “bom” como algo comum a um conjunto de indivíduos dentro dessas coordenadas históricas” – cultura no sentido lato sempre com a ressalva de gostos “diferentes “ dentro da mesma cultura, se bem que nunca serão assim tão diferentes. Esta discussão fez-me muito lembrar as minhas belas aulas de antropologia do simbólico e fez-me questionar e até mesmo pesquisar conceitos e pensamentos que gostaria de partilhar, dando o meu humilde contributo ao Perú.
    Indo mais profundamente à questão: A antropologia da música ou a moderna etnomusicologia é uma disciplina que visa o estudo da música enquanto fenómeno cultural, social, económico e político dinâmico. Considerando qualquer prática musical como testemunho e património cultural imaterial (ou não) de uma dada sociedade onde está inserida, esta é referência da sua própria identidade.
    Vistas as coisas numa lente macro, penso que o “gosto dos outros” tem que ver obrigatoriamente com o conceito de etnicidade como um processo mental que vive de dicotomização sistemática e inerente à mente humana - produção humana de diferentes culturas.
    Dito de outra maneira, penso que a questão centra-se na nossa estrutura mental e no modo como vivemos em sociedade. De qualquer modo há aqui uma questão interessante que são as experiências individuais e de partilha quando se está num processo performativo, sejamos sujeitos passivos ou activos. A música sendo uma linguagem universal e sendo uma arte transversal a todas as culturas permite uma comunicação que por exemplo a língua não permite. Não necessitamos de falar para nos entendermos musicalmente. E essa partilha é a razão desta arte ser tão singular. Por esse motivo é possível dois sujeitos de culturas diferentes partilharem um gosto musical, e que esse mesmo gosto poderá não ser partilhado por dois sujeitos de uma mesma cultura. No entanto ressalvo que embora duas pessoas da mesma cultura (por exemplo dois portugueses) possam gostar de géneros musicais diferentes, estão na mesma condicionados a padrões de cultura aos quais poderá ser difícil fugir a eles. Ou seja, o modo como irão encarar uma dada música de outra cultura (por exemplo um Raga) será sempre com pré-conceitos inerentes à sua condição. Nunca irão entender o Raga na sua génese / concepção – Isto não quer dizer que não apreciem, quer apenas dizer que estamos todos à partida condicionados a padrões morais, educacionais, históricos etc - padrões de cultura!
    A música leva-nos a processos colectivos em massa delirantes: histerismos, sensação de felicidade etc, etc. Estes fenómenos colectivos/individuais são para mim a parte interessante… Talvez por questões físicas (questões relacionadas com as frequências e o nosso sistema nervoso) e/ou psíquicas (todas as questões e mais acima já relatadas) o delírio das massas que se vê por exemplo no famoso vídeo dos Beatles em que se vêm umas senhoras histéricas a agarrar nos cabelos é um exemplo!!! É uma prova de como a arte musical consegue um fenómeno, a meu ver curioso, que é a distorção da realidade (fenómeno psíquico individual inerente apenas aos humanos – Demens) e por outro lado, ao fenómeno também delirante do colectivo – todos estão completamente histéricos!
    :D

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  4. Hum… “dicotomização sistemática”… gosto dessa! É um pouco altissonante mas deliciosa... queres dizer que tendemos a criar apenas duas categorias (do tipo “nós e os outros”), quando a realidade é bem mais complexa e múltipla. Certo?

    Luís,
    Para além de ficar a saber que jamais poderei entender uma boa batucada na “sua génese” (não me conformo com esta), temos de agradecer ao Eduardo por ter feito a pergunta que fez...

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  5. Hehehehe! Sabia que ia ser polémica!
    Sim, a realidade é bem mais complexa e por isso mesmo naturalmente dicotomizamos. É mais fácil de gerir. :D
    Quanto à batucada, embora a sintas e a partilhes nunca a entenderás como um Bosquimane.
    É o que penso...

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  6. Em face deste comentário, permito-me ser ainda mais polémico: eu posso sentir, mas não viver, a batucada do bosquímano, da forma que ele vive; mas é muito mais difícil para ele viver o "Firth of the Fifth" dos Genesis do que para mim a batucada dele. Está dado o mote...

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  7. Credo, Luís! Abrenúncio! Ainda somos comidos vivos e antes do Natal… pela máfia do “relativismo cultural” (eu queria dizer “linha dura”…)! E suspeito de que haja “infiltrados” no Peru…

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  8. Será o "Firth of the Fifth" dos Genesis mais difícil de ser compreendido por um Bosquímano do que uma batucada ser compreendida por um “ocidental”?
    Ora...um dos temas mais importantes e, a meu ver, dos mais interessantes da etnomusicologia, é procurar saber como os indivíduos dão sentido à música nas suas convenções sociais em diferentes contextos. Para entendermos a expressão musical humana temos de apreender a música como modelo de pensamento humano, estruturado, estilístico, contemplado num sistema cultural. Para compreender a música como uma capacidade humana é necessário analisar o sistema musical em relação ao sistema simbólico e social numa dada sociedade (análise de matriz dinâmica e comunicativa) – música como sistema simbólico das interacções sociais. Procurar significados similares para os sons desconhecidos, sendo a busca do significado uma busca para a identificação entre o som (produção simbólica, performativa e individual) e o receptor (audiência) é uma interacção que só é possível se houver uma compatibilidade nos códigos musicais entre o individuo e o colectivo. Quando há essa comunicação simbólica e dinâmica a criação artística individual passa a ser colectiva e estamos perante uma linguagem musical em que os ouvintes dão sentido aos sons que estão a ouvir.
    Em termos biológicos, as emoções que sentimos são produto de uma ditadura cerebral relativa a funções que devem ser executadas para o bom funcionamento do aparelho biológico e físico. Por outro lado, a abordagem antropológica defende que a experiência emocional só pode ser compreendida tendo em conta a relação do sujeito com as relações sociais – mais uma vez o conjunto de códigos e valores emocionais que são determinados culturalmente (por exemplo, num contexto ocidental, é conhecida a metáfora para identificar o modo menor que sugere tristeza e o modo maior alegria) – exemplo de uma associação directa entre a música e as emoções. Sendo a música um acto individual e de partilha, contem uma experiência musical e emocional. Por isso a relação entre a música e a emoção é estritamente humana e mais uma vez remete-nos para o campo da identidade individual e colectiva (etnicidade).
    Qual então o papel da música na etnicidade, que penso não ter ficado claro? A música tem um papel formativo na construção, transformação e negociação das identidades acompanhando a dinâmica e a mudança social. E voltámos ao mesmo...
    Resumindo: estará o Bosquímano condenado a não apreciar (da mesma forma que um ocidental aprecia) o "Firth of the Fifth"? Será que entende os códigos da música ocidental? Talvez os ocidentais estejam melhor equipados para entender o batuque....mas o batuque está na génese do Homo Sapiens.... já o "Fith of Fith"..... de qualquer forma o Bosquímano pode entender o “Fith of Fith”....da mesma forma que um de nós pode entender a batucada.....identificando-se com ela....

    Susana Corleone

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  9. Excelente texto, Susana!

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  10. Grazie! :D

    http://www.youtube.com/watch?v=HWqKPWO5T4o&feature=related

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  11. Anónimo13:28

    mas o mais giro é que toda a música começa com uma batucada (tempo)... e é só o meio cultural que nos faz ter maior ou menor dificuldade em perceber a música de... meios diferentes do nosso.
    será que quanto mais larga, abrangente e com abertura para novos horizontes é a cultura individual, maior é a facilidade de ouvir a música de outros meios e talvez até de os compreender?
    ou será o cerrar teimosamente dentro da nossa cultura que nos faz identificar com ela, não perdendo a sua identidade, misturando-se com outras, que ela sem mantém viva e imutável?

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  12. Complicar o que é simples...

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  13. Acho que o Paulo faz um ponto válido aqui...
    Podemos pensar que o Quim Barreiros é tão válido para as operárias fabris do vale do Ave (sem desprimor para essas valorosas representantes da classe trabalhadora, claro!), como os Genesis pré-Collins para aqueles tipos complicado do prog... e sem possibilidade de compará-los...ou não?

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  14. Este comentário foi removido pelo autor.

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  15. Eis o que penso: Se estivermos a analisar a questão do ponto de vista do "Gosto dos Outros" - em termos de identificação com algo que está inserido na nossa "subcultura" assim como na experiência pessoal, música ouvida na juventude, etç... penso então, que o Quim Barreiros é tão válido quanto os Genesis pré-Collins, porque para cada individuo haverá uma identificação pessoal e uma "história" contextualizada num tempo e espaço. No entanto, se estivermos a analisar a "coisa" em termos musicológicos (estrutura, harmonia, composição, contraponto, conceito etc etc)... a coisa muda de figura...

    Ass: O Diabo

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  16. Caro Diabo, então, concluindo, com alguma certeza podemos dizer que, em termos musicológicos (e não sociológicos, credo, abrenúncio, t'arrenego), o Firth of thr Fifth é superior à tal batucada, certo?

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  17. Exmo. El K é isso mesmo!

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