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02 janeiro 2011

Let the Peru speak: 2010



Com todas as limitações de não ter ouvido muitos dos discos que pululam nas múltiplas listas, então aqui estão alguns dos discos de 2010 que me deu e dá prazer ouvir, salvaguardando que outros se venham a revelar favoritos com o tempo. Mas não é sempre assim?
Enfim, são estes:
Dangermouse and Sparklehorse – Dark Night of the Soul
Edição finalmente este ano, após disputa conturbada entre Dangermouse e a Emi, e embora o disco já estivesse disponível para download ilegal na net, este disco é uma das estrelas de 2010 e estou surpreso de não ver nos lugares cimeiros de algumas publicações. Infelizmente, Mark Linkous, o nome por trás dos Sparklehorse, suicidou-se em Março deste ano. Para este registo frágil e belo deram colaboração nomes como Black Francis, Julian Casablancas, The Flaming Lips, David Lynch, Iggy Pop, Vic Chestnutt, Suzanne Veja, entre outros.






                 Neil Young – Le Noise
A colaboração com Daniel Lanois produziu um álbum de som potente, dos melhores temas que Young escreveu e uma reafirmação do génio deste resistente – um dos meus heróis pessoais.





Scout Niblett – The calcination of Scout Nibblet
Explorações à guitarra eléctrica, um som poderoso e uma técnica muito expressiva. Quem disse que mulher não sabe rockar?







 Gil Scott-Heron – I’m New Here
O regresso de uma lenda da música negra norte-americana, com um disco autobiográfico, em que Scott-Heron parece às vezes estar a exorcizar os seus demónios, como em “Me and the Devil”. Negro, intenso, brilhante.





Roky Ericsson with Okkervil River – True love cast all evil
Outro regressado, com a mão providencial dos Okkervil River, para um dos registos mais genuínos do ano. A melhor música faz-se com aquilo que cada um sabe, e sente, e próxima do coração.

Caribou – Swim: Explorações sónicas, rítmicas, hipnóticas, algumas dançáveis, de um canadiano mutante.

















Laurie Anderson – Homeland
Observações perspicazes e minuciosas da vida, como em “Only an Expert” – servidas por uma orquestração (em Laurie Anderson raramente se pode falar em “canções”) competente, com o habitual edge nova-iorquino (e um pouco de Lou Reed).


Efterklang – Magic Chairs
Art rock inteligente, bem feito, charmoso, vindo da… Dinamarca.













Expensive Soul - Utopia
Soul Funk Pop portuguesa irresistível.













The Black Keys – Brothers
Rock tradicional, bons riffs, energia, joie de vivre… Anddaram na mesma escola dos Stones e dos The  Who, embora as notas não sejam as mesmas. 










Sleepy Suns – Fever
Guitarras cheias de delay, reverb, algum feedback e um sentimento excursionista, vozes com um feeling laid back, trips e baladas.












Hot Chip – One Life stand
Há qualquer coisa de efectivamente viciante na música electrónica aparentemente simples deste duo. Aqui intervalam faixas dançáveis com outras mais introspectiva, mas as melhores são claramente as dançáveis.








Vampire Weekend - Contra
Não há como não gostar deste som saltitante que funde rock e ritmos sul-africanos e que é o mais recente coquétel rock adolescente. Bebe-se de um trago.








Sade – Soldier of Love
Sade tem um segredo, que usa para fazer pouco, mas bom. Nunca sai de moda, nunca arrisca e é sempre de um bom gosto irrepreensível. Provou-o mais uma vez.










Songdog – a life eroding 
Galeses de palavra, poetas com instrumentos à mão. A sua música é de crueza de palavras e nudez da alma. É melancólica, triste,














Midlake – The Courage of Others
Depois do brilhante “The trials of Van Occupantther”, “The Courage of Others” mantém o nível, embora seja um registo mais melancólico. Belos temas e belos executantes. Melodias que ficam.





Afrocubism
Cruzamento de música do Mali com música cubana, este deveria ter sido o som do filme “Buena Vista Social Club”, se os Malinianos (?) tivessem conseguido vistos. Assim, tivemos dois bons discos, mas este é nitidamente superior à banda sonora do filme, pelo cruzamento enfeitiçado dos ritmos, como se Cuba nunca tivesse saído de África e a música cubana tivesse encontrado uma raiz e crescido com um novo tronco. Com o excelente Toumani Diabaté, que surge em algumas publicações associado a outro dos discos do ano, que não ouvi: “Ali Farka Touré e Toumani Diabaté”.
Mário Laginha – Mongrel
Um Laginha dentro de Chopin, recriando o Chopin que há dentro de si. Cada vez se faz melhor música em Portugal.
Pode juntar-se-lhe um disco da polaca Symphony Jazz Project, saído também este ano e chamado simplesmente “Chopin”, como termo de comparação da reinvenção do genial polaco, mas para mim Laginha fica acima. Claramente.






Manu Codjia – Covers
Uma ediçao Bee Jazz, que começa, para mim, a ser umsêlo de qualidade, pelas excelentes edições que me têm passado pelos ouvidos: Codjia é um guitarrista talentoso que aqui deixa um registo em trio de covers de rock, de um imparável “Billie Jean”,a  “Hallelujah” de Cohen, ou um improvável, mas não menos ousado, “Hunting high and Low”, dos A-HA. O som faz-me lembrar um pouco o trio de Ginger Baker com Bill Frisell na guitarra, embora o som de Codjia seja mais “sujo”. Imperdível.



Brad Mehldau - Highway Rider


Trabalho de fusão jazz e orquestra, mas não no sentido ilustrativo, de orquestra servindo de fundo, ou a orquestra tomando o lugar do jazz.  Um trabalho conceptual e de fôlego, o segundo de Mehldau neste termos. Além de influências da música dita erudita pré-contemporânea, Mehldau de alguma forma incluiu nestes temas também a admiração também pelo trabalho de François Rauber com Jacques Brel e de Bob Alcivar com Tom Waits. 


Couple Coffee – Quarto Grão
Não sei se é dos melhores do ano do Brasil, mas é bom e novo. Os Couple Coffee são um grupo  que faz música que não é (só) MPB nem Bossa Nova – é só boa música, orgânica, mexida, a raiar o jazz, com letras inteligentes, um tema de Sérgio Godinho, participação de José Peixoto e um outro tema cantado por J.P. Simões.









 Compilações:
Soul Jazz Records – Singles 2009-2010 – musica de dança nova e ousada. Desbravando caminhos. Pode emparelhar com Caribou.




Deustche Elektonische Musik – a redescoberta do krautrock é um fenómeno recente que tem trazido a lume clássicos e nomes que quase ninguém tinha ouvido falar. É um bocado como dizia a Clara Ferreira Alves numa entrevista com o Embaixador inglês cessante no Expresso desta semana: toda a gente anda a “reler”, ninguém admite que anda a ler coisas antigas.Eu admito: não se passa uma semana sem que descubra coisas “novas” antigas.  E esta é uma boa compilação para quem quiser começar a descobrir. E também da Soul Jazz Records.


Reedições:
Apenas destaco aqui uma edição preciosa, que não ando a reler, ando mesmo a ler: Don Ellis, “Haiku”. Um disco de jazz fenomenal, mas que não é puro jazz: resulta desse período particularmente criativo dos anos 70 em que o jazz abriu as portas a outras (a todas?) as músicas. Esta é uma re-edição MPS do álbum de 1974, gravado com orquestra e um rol impressionante de músicos sonantes, entre os quais destaco Larry Coryell e Ray Brown. A música é de uma leveza e de um espírito admiráveis, e, já agora, de uma beleza notável. Imprescindível. (um link para explorar mais: http://www.allaboutjazz.com/php/article.php?id=35969)

O que eles dizem sobre 2010

Fatais como o relógio da meia-noite, ou o sacrifício benemérito dos perus, chegaram , logo no início de Dezembro (na maior parte dos casos), as listas de melhores do ano.

Em vários estilos musicais, conforme o pendor da publicação, ou do crítico, enumeram-se o bons discos. E mesmo no rock, onde é mais tentador fazer listas, pela quantidade e variedade de edições, há para vários gostos: as edições mais populares escolhem discos mais acessíveis alguns críticos que fazem listas pessoais escolhem objectos mais recônditos. O Expresso é um caso à parte de heterogeneidade. Creio que nenhuma das escolhas de cada crítico é corroborada por outro.
Para que servem estas listas?

Antes de mais, é da natureza dos críticos dar opiniões, e da natureza do humano estabelecer ordens de importância. Mas, na verdade, elas servem para o desatento poder ainda comprar os discos a tempo do Natal. Sim, porque se as listas pretendem rever o ano todo, porque é que são publicadas antes do ano acabar? Em Dezembro não se publica ou as obras não prestam? E estes discos não são recuperados para as listas do ano seguinte… Por exemplo, a Uncut, na mesma edição em que publica os melhores de 2010, noticia as edições recentes e atribui 4* a vários discos: Duffy –“Endlessly”; Iron & Wine – “Kiss Each Other Clean”, Dreamend – “So I Ate Myself, Bite by Bite”, JD Emmanuel – “Wizards”, The Dead C – “Patience”, Steve Wybb & The Miracle 3 – “Northern Aggression”, etc…

O que está errado é porem como nome a estas listas “o melhor de 2010”. Isto entra das estratégias de marketing para vender revistas. Não seria tão sexy dizer: “algumas escolhas de discos que ouvimos e gostámos em 2010”. Alguma humildade crítica era desejável. É muito presunçoso dizer que este e aqueles discos são os melhores, principalmente porque a quantidade avassaladora de edições torna impossível absorvê-las e apreciá-las. E é muito redutor dizer que um determinado disco de rock é o melhor de 2010, quando ao lado pode ter saído um disco de jazz que é de uma novidade extrema mas que o crítico não conhece. Ou não aprecia… A música é demasiado universal para poder ser reduzida aos nomes de putos novos de Inglaterra e velhos dinossauros dos Estados Unidos, bandas emergentes de Brooklyn e as novas sensações Australianas. Sem nos apercebermos, acabamos por reduzir o mapa do mundo aos países anglófonos. Onde está a música que se faz na Polónia, da França, os nomes novos da Suécia ou as bandas emergentes da Turquia ? E o que têm o Brasil, a Índia e a China a dizer sobre isto? Afinal, domina o nosso preconceito musical, que é ditado pela geografia e pelos preconceitos de meia dúzia que escrevem nos media.

Ainda assim, essas listas servem de ponto de referência no tempo para alguma música. Vistas anos depois, marcam de certa forma um ano, mais pelo que ficou e do que evoluiu do que por aquilo que revelaram.

Enredado nestas cogitações, o Peru não estava muito inclinado a contribuir com mais lixo cósmico para o ciberespaço. Até porque, lendo o que por aí sai, não partilha de algumas das adorações vigentes, mas não quer passar por ignorante. Serei só eu a achar que os Arcade Fire têm, em todos os temas, um ritmo de cavalgada épica que repetem ad nauseam e torna a música deles monótona?

Resolvi, ainda antes de passar a algumas menções pessoais, fazer alguma estatística, e analisei os top 20 (ou 10, quando se limitaram a 10 escolhas), de várias publicações, blogues, críticos, mailing lists: foram eles: Uncut, Mojo, The Word, Louie Louie, Blitz, Expresso (4 críticos), Blog Bodyspace. E cheguei ao top dos mais recomendados, pelo número de menções. Vale o que vale, mas… the winners are:

1º lugar Ex-aequo com 5 nomeações:
LCD SOUNDSYSTEM – This is Happening
VAMPIRE WEEKEND – Contra

2º lugar Ex-aequo com 4 nomeações
GIL SCOTT-HERON – I’m new here
ALOE BLACC – Good Things
CARIBOU – Swim
ARIEL PINK - Before Today
DEERHUNTER – Halcyon Digest
ARCADE FIRE – The Suburbs
JOHN GRANT – The Queen of Denmark

3º lugar ex-aequo com 3 nomeações
FLYING LOTUS – COSMOGRAMMA
THE NATIONAL – HIGH VIOLET
THE BLACK KEYS – Brothers
E todos os outros discos têm 2 nomeações ou menos. Ou seja, 10 críticos diferentes chegaram a 115 escolhas diferentes. Se alguma prova faltava da diversidade e qualidade da música que hoje se faz, ela aqui está.